O SERINGAL

Nascidos de 26 semanas, gêmeos só podiam ser tocados por buracos no vidro — até o pai testar uma incubadora de ficção científica no próprio colo

Nascidos de 26 semanas, gêmeos só podiam ser tocados por buracos no vidro — até o pai testar uma incubadora de ficção científica no próprio colo

O nascimento de um bebê prematuro extremo impõe uma barreira dolorosa para as famílias nas UTI (Unidades de Terapia Intensiva) neonatais: a limitação do toque físico. Quando os gêmeos Silas e Simone nasceram com apenas 26 semanas de gestação, em 7 de agosto, no Children’s Memorial Hermann Hospital, no Texas, Estados Unidos, o destino imediato foi a incubadora tradicional.

Diante do vidro protetor, os pais só podiam tocar os recém-nascidos pelas pequenas aberturas laterais do equipamento.

A mãe das crianças, a médica obstetra Tiffany Ikwuagwu, relatou a angústia de acompanhar a rotina sem poder acolher os filhos no colo. A distância forçada pela fragilidade da saúde dos bebês, no entanto, foi encurtada dez dias após o parto graças a um equipamento experimental chamado Skincubator, descrito por Tiffany como um dispositivo que até parecia “de ficção científica”.

‘Parecia ficção científica’: a estreia de um pai nos EUA

O marido de Tiffany, Dorian Ojemen, tornou-se o primeiro pai nos Estados Unidos a utilizar a tecnologia em um ensaio clínico. A experiência de segurar os filhos diretamente sobre o peito, ouvir a respiração e encará-los de perto trouxe o alívio do vínculo paternal imediato.

Dorian ressaltou que, mesmo não tendo carregado os bebês na barriga, a inovação permitiu sua participação ativa na equipe de bem-estar dos gêmeos.

O estudo pioneiro no hospital norte-americano é conduzido pela médica Jaclyn Ruggiero. Para famílias em situação de prematuridade extrema, a oportunidade de realizar o contato pele a pele de forma segura representa uma transformação na assistência psicológica e física durante a internação hospitalar.

Como funciona o ‘casulo portátil’ seguro para a UTI

Diferente das incubadoras fixas convencionais, o Skincubator funciona como uma estrutura portátil e vestível que se acomoda no colo dos pais.

O bebê é transferido temporariamente para esse casulo móvel, que reproduz rigorosamente o controle de temperatura e mantém níveis altíssimos de umidade para evitar a hipotermia, além de permitir a manutenção de todos os equipamentos de suporte à vida acoplados ao recém-nascido.

Essa arquitetura médica resolve um dos principais entraves do ambiente intensivo. A OMS, (Organização Mundial da Saúde) recomenda mais de oito horas diárias da prática conhecida como método canguru, o contato direto pele a pele, mas a complexidade técnica dos tratamentos faz com que recém-nascidos graves recebam, em média, menos de 30 minutos diários de acolhimento nos braços dos pais.

Benefícios para o bebê e cenário da tecnologia

A ampliação do tempo de contato direto traz ganhos comprovados à saúde dos prematuros, como a regulação da frequência cardíaca, a diminuição do estresse e o fortalecimento do vínculo familiar. Antes de chegar aos ensaios clínicos norte-americanos, o dispositivo já passou por utilizações em hospitais na Alemanha e em Israel.

Embora a técnica humanizada do método canguru seja amplamente consolidada no sistema de saúde pública do Brasil, o equipamento Skincubator ainda se encontra em fase experimental nos Estados Unidos e não está disponível comercialmente no mercado brasileiro.

TópicosEstados UnidosOMS (Organização Mundial da Saúde)


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por esterjacopetti.

Sair da versão mobile