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O que as ruas da Liberdade, em São Paulo, escondiam: ossadas humanas e relíquias sagradas são encontradas e resgatam a memória de antigos cemitérios

O que as ruas da Liberdade, em São Paulo, escondiam: ossadas humanas e relíquias sagradas são encontradas e resgatam a memória de antigos cemitérios

Obras de infraestrutura urbana no centro de São Paulo trouxeram à tona um importante patrimônio arqueológico ligado à história da população negra e indígena da capital. Durante as intervenções do programa municipal Ruas Abertas no bairro da Liberdade, arqueólogos identificaram fragmentos de ossos humanos e artefatos de rituais de matriz afro-brasileira a poucos centímetros abaixo do asfalto.

As descobertas ocorreram na área correspondente ao antigo Cemitério dos Aflitos e mobilizaram órgãos de preservação para o acompanhamento técnico dos trabalhos. Embora a Liberdade seja reconhecida internacionalmente por sua forte identidade cultural asiática, seu subsolo guarda uma camada e por vezes esquecida da formação paulistana.

A presença desses vestígios mostra como a memória social de populações marginalizadas do passado permanece preservada sob a rotina agitada do trânsito da cidade, separada da superfície por uma fina camada de solo e pavimento.

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Achados a 30 centímetros da superfície: as louças sacras e o fêmur revelados nas escavações

As primeiras peças foram encontradas em junho, na rua dos Estudantes, próximo à esquina com a rua Galvão Bueno, onde uma vala a 35 centímetros de profundidade revelou pedaços de louça, vidro e ossos bovinos associados a práticas religiosas afro-brasileiras.

Poucos meses depois, em 5 de outubro, a equipe de arqueólogos localizou um fragmento de fêmur humano a apenas 30 centímetros do solo, na rua Thomaz Gonzaga. Diante do achado, o trecho foi isolado com lona plástica, areia e tapumes para permitir a remoção e a análise minuciosa dos materiais por peritos.

O antigo Cemitério dos Aflitos e a verdadeira história soterrada sob a Liberdade

A localização das peças coincide com o perímetro histórico do Cemitério dos Aflitos, espaço em que a cidade sepultou pessoas escravizadas, indígenas, pobres e indigentes entre os anos de 1775 e 1858.

A baixa profundidade em que as relíquias emergiram repete o mesmo padrão observado em 2018 nas escavações do entorno da Capela dos Aflitos, o que comprova a existência de um rico depósito arqueológico preservado ao longo dos séculos. O achado motivou o encaminhamento de notas técnicas ao Iphan, (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para proteger a área.

Pausa nas obras, monitoramento do Iphan e a preservação da memória ancestral

Em razão do valor histórico, trechos das obras, orçadas em R$ 5 milhões para a revitalização de 14 mil metros quadrados, foram paralisados temporariamente para a coleta do material. O acompanhamento arqueológico agora conta com a supervisão direta do Iphan e a atuação de especialistas em bioarqueologia e diáspora africana.

Sem data para a conclusão dos trabalhos viários, o resgate ressalta a importância da pesquisa arqueológica em obras públicas para reconstruir a memória multiétnica paulistana.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por esterjacopetti.

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