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Rei Leão, Ratatouille: Conheça projeto de Gaza que leva cinema às crianças

Rei Leão, Ratatouille: Conheça projeto de Gaza que leva cinema às crianças

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Dezenas de crianças sentadas na areia, de frente para um pequeno telão, enquanto um projetor exibia o filme “O Rei Leão”. Ao seu redor, tendas de acampamento improvisadas e incontáveis pilhas de destroços.

As imagens registradas pelo fotógrafo Omar Ashtawy no bairro de Sheikh Radwan, ao norte da Cidade de Gaza, são o mais recente retrato do território palestino devastado por ataques israelenses a viralizar nas redes sociais.

Palestinos, incluindo crianças, assistem a uma exibição de filme organizada pelo Little Wings Cinema no bairro de Sheikh Radwan, ao norte da Cidade de Gaza, em 30 de agosto de 2026. A iniciativa proporciona às crianças um espaço de lazer em meio às condições difíceis e à destruição generalizada causadas pela guerra entre Israel e o Hamas. • Omar Ashtawy/Getty Images

Por trás das fotos, está um projeto itinerante que tem o objetivo de levar cinema às crianças da Faixa de Gaza.

Assim como o Festival Internacional de Cinema de Mulheres de Gaza, esse é um dos exemplos de iniciativas culturais que se estabeleceram em Gaza após o início do frágil cessar-fogo entre Israel e Hamas, em outubro do ano passado.

A iniciativa, batizada de “Pequenas Asas”, foi criada pela Fundação Masharawi para Cinema e Cineastas em Gaza.

“Tela chegou às crianças onde estivessem”: Como o projeto surgiu?

O diretor da organização, Khamis Masharawi, falou à CNN Brasil que o projeto surgiu a partir de um festival de cinema para crianças que a fundação organizou entre novembro e dezembro do ano passado.

Ele explicou que um dos maiores desafios enfrentados pelo festival foi a ausência de centros culturais para exibir os filmes. “Todos os teatros, auditórios, salas de cinema na Faixa de Gaza foram destruídos. Não havia um centro cultural ao qual recorrer, nem uma sala pronta para receber as crianças. Mas, em vez de essa ausência ser um obstáculo, ela virou uma ideia”, contou.

Segundo levantamento da ONU, cerca de 80% de todas as estruturas em Gaza foram danificadas desde o início da campanha de bombardeios israelenses. A destruição também deixou os palestinos em uma situação crítica na busca por abrigos seguros em meio aos ataques aéreos e à ameaça de munições não detonadas.

“Surgiu esta visão simples: que todos os locais de Gaza – os campos de deslocados, os espaços abertos, as ruas e as escolas improvisadas – fossem as novas salas de cinema”, acrescentou Masharawi, que também é um dos 22 cineastas responsáveis pelo filme “From Ground Zero”, representante da Palestina para o Oscar de 2025.

Projeto itinerante “Pequenas Asas”, criado pela Fundação Masharawi, já organizou mais de 300 exibições de filmes infantis para as crianças palestinas em Gaza em meio ao cenário de destruição no território palestino. • Cortesia de Masharawi Fund

Masharawi disse que essa escolha permitiu um alcance maior do que seria possível se o projeto ficasse restrito a uma única sala ou centro cultural.

Os organizadores se mobilizaram para adaptar os espaços com os recursos simples que conseguiram reunir: uma caixa de som, um notebook, um projetor e uma tela de projeção.

“A tela chegou às crianças onde quer que estivessem, como parte de seu dia a dia e de suas vidas”, avaliou.

“Quando o filme termina, todos vão dormir no escuro”, diz organizador

Desde o festival no fim do ano passado, eles têm organizado as sessões quase todos os dias. Os eventos também incluem atividades de pintura de rosto, música e dança antes da exibição do filme.

Um vídeo enviado pelos organizadores à CNN Brasil mostra as crianças brincando e dançando em uma das sessões, antes de assistir ao filme.

Entre filmes como “O Rei Leão”, “Ratatouille”, “Up: Altas Aventuras” e “Enrolados”, Masharawi estima que mais de 300 exibições já foram realizadas, com uma média de 200 crianças por sessão.

“Esta sessão de cinema deu esperança às nossas crianças. Já faz três anos que elas não assistem a filmes e há crianças que nem sabem o que é uma tela. Isso não está disponível para nós nos campos de refugiados. Trouxe um sorriso de volta aos seus rostos”, disse a mãe de uma das crianças à agência Reuters depois de uma das exibições.

Divididos em duas equipes de trabalho na organização, eles esperam poder realizar uma nova edição do Festival de Cinema para as Crianças de Gaza em novembro, com “oficinas de animação de teatro para crianças, apresentações de marionetes, palhaços, grupos de dança, apresentações de Dabke [dança tradicional árabe], música e atividades artísticas”.

Masharawi afirma que o projeto “Pequenas Asas” consegue criar um “espaço de respiro” para as crianças em meio ao cenário de destruição em Gaza.

À CNN Brasil, ele disse que os filmes criaram um “lugar seguro que devolveu à criança a oportunidade de se ver fora da dor, mesmo que por um período curto”.

“Mas é difícil comparar Gaza com qualquer sociedade que desfrute de seus direitos plenos”, pondera.

“As crianças sentam-se no chão, na areia. Não há eletricidade, há fios descascados soltos; temos apenas um único fio que sai do gerador de energia para o projetor, e quando o filme termina, todos vão dormir no escuro”, completa Masharawi.

“Ambiente não é seguro”: Bairro foi bombardeado dias após sessão de “O Rei Leão”

Apesar dos momentos de leveza que as sessões têm conseguido promover para as crianças, o diretor reforça: “O ambiente onde fazemos as exibições dos filmes não é seguro.”

“Nossas exibições acontecem frequentemente sob bombardeios ou acompanhadas pelo som de sirenes de ambulâncias”, disse Masharawi à CNN Brasil.

Um exemplo é a sessão viralizada de “O Rei Leão”.

Na terça-feira (15), poucos dias após o evento do projeto “Pequenas Asas”, ataques israelenses em Sheikh Radwan atingiram um veículo matando ao menos dois palestinos, incluindo uma criança, e feriram outros sete, segundo autoridades de saúde locais. As forças israelenses alegam ter atacado um comandante do Hamas, mas não deram detalhes.

Projeto itinerante “Pequenas Asas”, criado pela Fundação Masharawi, já organizou mais de 300 exibições de filmes infantis para as crianças palestinas em Gaza em meio ao cenário de destruição no território palestino. • Cortesia de Masharawi Fund

Qual a atual situação em Gaza?

Quase um ano após um cessar-fogo ter encerrado os principais combates em Gaza, a reconstrução do território devastado ainda não começou e episódios de ataques continuam a acontecer. A maioria das estruturas foi completamente destruída por ataques aéreos israelenses ou demolida por tratores das forças israelenses, e praticamente todas as demais sofreram danos.

A população de mais de 2 milhões de pessoas vive confinada em um terço do território, abrigada principalmente em tendas improvisadas ou em cômodos superlotados de edifícios danificados.

Autoridades palestinas e da ONU atribuem a falta de maquinário pesado para a remoção de escombros e a reconstrução de casas às restrições impostas por Israel a Gaza. Israel afirma que suas restrições visam impedir que equipamentos caiam nas mãos do Hamas.

Autoridades palestinas informam que mais de 73 mil pessoas foram mortas na ofensiva de Israel contra Gaza, iniciada após combatentes liderados pelo Hamas matarem 1.200 pessoas em um ataque ao sul de Israel, em outubro de 2023.

Um cessar-fogo mediado pelos EUA, acordado no ano passado, prevê a futura reconstrução do território; no entanto, houve pouco progresso, uma vez que os negociadores não conseguiram chegar a um acordo sobre as condições para o desarmamento do Hamas e a retirada das tropas israelenses.

As crianças estão entre as principais afetadas no território palestino, seja como vítimas diretas dos ataques ou de seus efeitos, como a interrupção severa no acesso à água potável, comida, assistência médica e educação.

Segundo um relatório da ONU divulgado em junho deste ano, pelo menos 20.179 crianças foram mortas e 44.143 ficaram feridas entre o início do conflito, em outubro de 2023, e o estabelecimento do frágil cessar-fogo em outubro do ano passado. A ONU avalia que o número verdadeiro é muito maior, com o temor de que milhares estejam soterradas sob os escombros.

Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), desde o início do cessar-fogo, mais 300 crianças foram mortas.

“Para as crianças palestinas, esse suposto cessar-fogo é uma ilusão cruel e mortal. […] Essas crianças não foram mortas em uma zona de guerra. Elas foram mortas em suas casas. Em suas escolas. Jogando futebol. Pescando. Foram baleadas, bombardeadas e atingidas por drones”, afirmou o porta-voz do Unicef, James Elder, em comunicado à imprensa.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por Léo Lopes.

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