O SERINGAL

Solidão e isolamento social: quando a falta de vínculos também adoece o coração

“Influenciadores da solidão” não têm amigos, mas dizem ser felizes

Compartilhar matéria

Quando pensamos em prevenção cardiovascular, alguns fatores aparecem imediatamente: pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade. Nos últimos anos, porém, outro componente ganhou espaço na pesquisa e nas discussões de saúde pública: a qualidade das nossas relações sociais.

Solidão e isolamento social não são exatamente a mesma coisa. Uma pessoa pode morar sozinha, ter poucos contatos e não se sentir solitária. Outra pode estar cercada de colegas, familiares e centenas de contatos nas redes sociais e, ainda assim, experimentar solidão. O isolamento é uma condição mais objetiva, relacionada à quantidade e à frequência das relações; a solidão é a percepção de que os vínculos existentes não correspondem àqueles de que a pessoa gostaria ou necessitaria.

Essa diferença importa, mas os dois fenômenos têm sido associados a consequências para a saúde que vão além do bem-estar emocional.

O coração também sente a falta de vínculos

Estudos observacionais e grandes revisões associam solidão e isolamento social a maior risco de doença cardiovascular, incluindo doença coronariana e acidente vascular cerebral, além de mortalidade prematura. Isso não significa que estar sozinho provoque diretamente um infarto, nem que seja possível atribuir uma doença cardíaca a uma única causa.

O risco cardiovascular é construído pela interação de muitos fatores. Nesse contexto, a desconexão social parece funcionar como mais uma peça desse conjunto.

Existem diferentes hipóteses para explicar essa relação. A solidão persistente pode representar uma situação de estresse crônico, com repercussões sobre sistemas hormonais e sobre o sistema nervoso autônomo. Alterações inflamatórias também vêm sendo investigadas.

Há ainda caminhos mais cotidianos. Pessoas socialmente isoladas podem apresentar pior qualidade do sono, menor atividade física, alimentação menos saudável ou maior dificuldade para aderir a tratamentos e procurar atendimento médico. Em alguém que já tem hipertensão, diabetes ou doença cardiovascular, a ausência de uma rede de apoio também pode dificultar o cuidado diário.

Portanto, provavelmente não existe um único mecanismo ligando solidão e coração. Há uma combinação de respostas biológicas, comportamentos e condições sociais que pode se acumular ao longo do tempo.

Não é um problema apenas de idosos

É fácil associar solidão à velhice. Aposentadoria, viuvez, perda de amigos, limitações físicas e redução da mobilidade realmente podem diminuir os contatos sociais. Mas os dados mais recentes mostram que olhar apenas para os idosos deixa escapar uma parte importante do problema.

O relatório da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo vivencie solidão. Entre adolescentes, a proporção chega a cerca de uma em cada cinco.

O dado chama atenção porque estamos falando justamente das gerações que cresceram com maior capacidade tecnológica de permanecer conectadas.

Estar conectado digitalmente, porém, não é necessariamente o mesmo que sentir-se socialmente conectado. Redes sociais, mensagens e videochamadas podem aproximar pessoas e preservar relações importantes, especialmente quando a distância física existe. O problema aparece quando a interação digital substitui vínculos significativos ou quando o uso excessivo das telas contribui para afastamento, comparação social, pior sono ou redução das relações presenciais.

Ainda não sabemos qual será o impacto cardiovascular, daqui a algumas décadas, de uma juventude que constrói parte relevante de suas relações no ambiente digital. Seria precipitado afirmar que as telas produzirão uma geração com mais doenças cardíacas. Mas já existem razões suficientes para considerar a qualidade dos vínculos sociais como parte da saúde ao longo da vida.

Prevenção cardiovascular também passa pela vida social

Isso não significa transformar amizade em prescrição médica nem dizer a uma pessoa solitária simplesmente que ela precisa “socializar mais”. A solidão pode estar associada a luto, depressão, dificuldades financeiras, doenças, limitações de mobilidade, ausência de espaços de convivência e muitas outras circunstâncias que não se resolvem apenas pela vontade individual.

Mas reconhecer o problema é um primeiro passo. Na prática clínica, perguntar como uma pessoa vive, com quem pode contar e se tem relações significativas pode acrescentar informações que pressão arterial, exames laboratoriais e eletrocardiograma não mostram. Em determinadas situações, atividades comunitárias, grupos, prática de exercícios coletivos, retomada de relações e apoio psicológico ou social podem ajudar a reconstruir vínculos.

Isso não substitui o controle dos fatores clássicos de risco. Uma pessoa hipertensa precisa tratar a pressão; quem tem colesterol elevado precisa avaliar seu risco e seguir a estratégia indicada; tabagismo e sedentarismo continuam exigindo atenção. A saúde social deve ser entendida como uma dimensão adicional do cuidado, e não como substituta da prevenção cardiovascular tradicional.

A Organização Mundial da Saúde passou a tratar a conexão social como uma questão de saúde pública e estima que a solidão esteja associada a centenas de milhares de mortes prematuras todos os anos. É uma mudança importante na maneira de pensar saúde.

Talvez precisemos acrescentar uma pergunta às que já fazemos sobre pressão, colesterol, exercício, alimentação e cigarro: como estão os nossos vínculos? O coração depende de artérias saudáveis, mas a saúde de quem o carrega também é construída pelas relações que mantém ao longo da vida.

*Texto escrito pelo Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore – CRM 24264 | RQE 69372, também Cardiologista e Livre-Docente pela FMUSP e Membro da Brazil Health.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por yasminjesus.

Sair da versão mobile