O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio “total e irrestrito” ao premiê israelense Benjamin Netanyahu nas eleições do dia 27 de outubro, que decidirão o novo governo de Israel.
Em uma postagem na rede social Truth Social neste domingo (18), Trump afirmou que Netanyahu tem sido “um grande primeiro-ministro em tempos de guerra”, do tipo que os Estados Unidos esperam de Israel. O presidente americano afirmou que o líder do Likud vem enfrentando pressão e oposição tremendas e, mesmo assim, não sucumbiu.
Trump destacou o papel de Netanyahu na guerra dos EUA contra o Irã, descrevendo-o como corajoso e brilhante: “Seria apenas uma questão de tempo até que o Irã colocasse essa ameaça em prática; no entanto, eles têm sido sistematicamente destruídos, tanto militar quanto financeiramente. A menos que mudem de postura — e rapidamente —, terminaremos o serviço em breve. Se Israel tiver o líder errado — ou seja, qualquer um que não seja Bibi —, a América terá de realizar esse trabalho por conta própria, algo que não tenho a menor intenção de fazer”.
Poucos minutos depois, Netanyahu agradeceu em uma postagem no X: “Obrigado, presidente Trump, pelo enorme apoio e pelo trabalho conjunto. Juntos, concluiremos a missão!”, afirmou.
Esta é a primeira vez que Trump declara publicamente seu endosso a Netanyahu nas eleições parlamentares deste mês. O partido de Bibi, o Likud, tenta manter o controle do Parlamento, mas enfrenta a oposição de partidos como o Yashar, do ex-general Gadi Eisenkot, e do Beyachad, de Naftali Bennett e Yair Lapid.
Apoio pode ajudar Netanyahu?
Uma pesquisa do Israel Democracy Institute mostrou uma queda na confiança em Trump entre os eleitores judeus: em novembro de 2024, 63% dos entrevistados acreditavam que a segurança de Israel é uma preocupação central para Donald Trump; mas o número caiu para 41% em maio de 2026.
Por outro lado, os árabes israelenses parecem manter a opinião sobre o presidente. Em novembro de 2024, 59% viam a segurança de Israel como uma questão central para Trump. O número registrou grandes oscilações ao longo dos meses, mas voltou a 59% em maio deste ano.
Para a analista de Internacional da CNN Brasil Fernanda Magnotta, apesar da popularidade de Trump entre os israelenses, o efeito do apoio do presidente dos EUA é muito desigual e não deve ser superestimado.
“Um endosso poderia reforçar um candidato junto a parcelas da direita e do eleitorado que valorizam a relação com Washington, mas dificilmente seria capaz, sozinho, de reorganizar uma eleição dominada por questões muito mais domésticas, como segurança, responsabilidade pelo 7 de Outubro, duração das guerras e capacidade de formar uma coalizão”, avalia a analista.
A professora de Relações Internacionais do Ibmec-SP Karina Calandrin também enxerga efeitos variados em parcelas diferentes do eleitorado: “Para parte da direita, uma manifestação de Trump poderia reforçar a velha narrativa de Netanyahu. Para outros eleitores, porém, a própria deterioração dessa relação pode enfraquecer essa mensagem, especialmente se Trump parecer estar pressionando Israel em questões de segurança”, explica.
Apesar do efeito incerto, os relatos de que a oposição tenta se aproximar do governo americano indicam que o apoio de Trump ainda é considerado influente.
“Naftali Bennett, Gadi Eisenkot e Yair Lapid teriam enviado mensagens ao círculo de Trump pedindo que ele permanecesse neutro. Isso mostra que os adversários de Netanyahu, aparentemente, levam a possibilidade de uma intervenção de Trump a sério, mesmo sem sabermos qual seria seu efeito eleitoral”, afirma Calandrin.
Relação de altos e baixos
A relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu tem vivido altos e baixos no último ano. Os presidente dos Estados Unidos e o premiê israelense insistem que têm um bom relacionamento, mas já protagonizaram discussões acaloradas que levantaram questionamentos sobre a estabilidade da aliança.
No início do segundo mandato de Donald Trump, em fevereiro de 2025, Netanyahu disse em uma entrevista à Fox News que o republicano é “o melhor amigo que Israel já teve”. Trump, por sua vez, também rasgou elogios ao premiê, a quem chamou de “um primeiro-ministro formidável e decisivo em tempos de guerra, e que agora conduz Israel a um período de paz”.
Desde que Trump voltou ao poder, Bibi visitou os Estados Unidos sete vezes, mais do que qualquer outro líder mundial. As reuniões costumam seguir o rito tradicional: tapete vermelho, aperto de mãos, uma breve fala à imprensa dentro do Salão Oval exaltando a parceria entre os países. Mas o último encontro, em julho, aconteceu a portas fechadas e cercado de controvérsias.
Em junho, Trump admitiu ter chamado Netanyahu de “louco” e ter falado uma série de palavrões em uma ligação com o premiê sobre os ataques de Israel no Líbano. Na época, o presidente dos EUA negociava um acordo com o Irã, mas Teerã exigia o fim dos ataques israelenses contra alvos do Hezbollah, no Líbano, como condição para qualquer trégua.
Segundo uma reportagem do portal de notícias Axios, que citou um funcionário americano não identificado, o republicano teria dito a Netanyahu: “Você está completamente louco. Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo te odeia agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso.” Questionado, Netanyahu disse que tem “diferenças táticas” com o presidente dos EUA, mas que a boa relação não havia mudado.
A CNN apurou que, no mês seguinte, Netanyahu e sua equipe trabalharam por semanas para garantir uma reunião com Trump na Casa Branca para discutir a guerra. Os esforços, no entanto, foram recebidos com resistência por Trump e por autoridades do governo americano. O encontro só aconteceu na última semana de julho, quando o premiê israelense visitou os EUA para comparecer ao funeral do senador Lindsey Graham.
O episódio é sintomático de uma divergência maior entre os dois líderes. Quando os Estados Unidos e Israel lançaram ataques conjuntos ao Irã, em fevereiro de 2026, Trump previa que o conflito duraria apenas algumas semanas e resultaria em uma queda rápida do regime iraniano, algo que não aconteceu.
No entanto, autoridades americanas disseram à CNN que, à medida que a guerra se estendia e aumentava a pressão sobre a economia, o presidente passou a ficar cada vez mais frustrado e impaciente para apresentar um acordo que pudesse vender como uma vitória dos EUA sobre o Irã.
Netanyahu, por outro lado, pressionava contra um acordo diplomático entre Washington e Teerã, principalmente um que incluísse uma trégua no Líbano. O premiê chegou a falar publicamente sobre as divergências: “Há casos em que o presidente Trump e eu não concordamos… Sou responsável pelos interesses de segurança de Israel, e isso precisa ser feito com sabedoria.”
Para a analista de Internacional Fernanda Magnotta, o desgaste não é necessariamente uma ruptura pessoal, mas uma divergência crescente de interesses e de timing estratégico.
“Trump e Netanyahu continuam próximos em temas centrais, sobretudo na percepção da ameaça representada pelo Irã, mas passaram a divergir sobre até onde levar as guerras e, principalmente, sobre como encerrá-las”, afirma Magnotta.
“O ponto de tensão, portanto, é que aquilo que pode representar uma saída aceitável para Washington nem sempre corresponde à ideia de vitória que Netanyahu vendeu ao eleitor israelense”, completa.
Os Estados Unidos continuam sendo o maior apoiador de Israel, diplomática e financeiramente. O governo Trump planeja, por exemplo, vender a Israel um pacote de munições no valor de US$ 2,8 bilhões, que incluirá dezenas de milhares de bombas de 900 kg de alto poder destrutivo. Mas as desavenças sugerem que Trump e Netanyahu podem não estar tão alinhados como demonstram publicamente.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por marianacatacci.
