Em Sena Madureira, o prefeito parece ter desenhado um projeto eleitoral que passa diretamente pela própria família. Gerlen quer emplacar o irmão, o deputado estadual Gene Diniz, na reeleição, e o primo, Manoel Jerônimo, na disputa por uma vaga de deputado federal.
Até aí, nada de extraordinário. Parentes podem disputar eleição e qualquer político tem o direito de apoiar quem quiser.
A questão é outra:
até onde vai a força do prefeito e onde começa a vontade do eleitor?
Porque uma coisa é Gerlen querer eleger seu irmão e seu primo.
Outra é acreditar que Sena Madureira queira a mesma coisa.
A rejeição que começa a preocupar
Nos últimos meses, a gestão de Gerlen passou a enfrentar fortes críticas e uma percepção crescente de reprovação, segundo relatos políticos e conversas ouvidas por este seringueiro.
A insatisfação, dizem interlocutores, já não estaria restrita à oposição. Teria começado a aparecer também entre pessoas que estiveram próximas do prefeito e que hoje demonstram desconforto com os rumos da administração.
E existe um detalhe importante:
rejeição não se resolve com fotografia, evento ou discurso.
Quando a reprovação começa a entrar na conversa de quem antes defendia o governo, o sinal amarelo acende.
E eleição tem uma característica cruel: ela transforma aquilo que parece apenas conversa de esquina em voto dentro da urna.
Gerlen e o estilo centralizador
Outra crítica recorrente nos bastidores é o estilo de comando de Gerlen.
O prefeito é descrito por aliados e ex-aliados como centralizador, alguém que concentra decisões e exerce forte controle sobre sua estrutura política e administrativa.
Esse modelo pode funcionar enquanto todos caminham na mesma direção.
O problema aparece quando começam as divergências.
Porque uma liderança forte pode organizar um grupo.
Mas uma liderança excessivamente centralizadora pode acabar afastando justamente aqueles que deveriam ajudar a sustentar o projeto.
E política não se faz sozinho.
Quem centraliza tudo também concentra todos os problemas.
Há uma percepção de que Gerlen estaria apostando pesado na estrutura da Prefeitura para construir uma espécie de locomotiva eleitoral para seus candidatos.
Só que tem um pequeno detalhe que costuma aparecer nas urnas:
funcionário não é cabo eleitoral obrigatório, vereador não é soldado e eleitor não é gado.
A política do cabresto ficou para trás.
Ou deveria ter ficado.
Quem ocupa cargo público precisa lembrar que a caneta é temporária. O mandato passa. O prefeito passa. O deputado passa.
O povo fica.
E o povo também sabe guardar desaforo.
Gene quer mais quatro anos
Gene Diniz já é deputado estadual e agora busca a reeleição.
Durante quase quatro anos, teve a tribuna da Assembleia Legislativa à disposição. E aqui não cabe perguntar apenas quantas vezes subiu à tribuna.
A pergunta que interessa é outra:
o que o eleitor de Sena Madureira ganhou com esse mandato?
Porque, na eleição, sobrenome não apresenta prestação de contas.
O eleitor vai querer saber de resultado.
Vai querer saber de trabalho.
Vai querer saber de presença.
Vai querer saber de compromisso.
E não adianta colocar a máquina inteira para fazer barulho se, na hora da urna, o eleitor estiver pensando outra coisa.
E vem Manoel Jerônimo
Do outro lado, Gerlen tenta construir também a candidatura do primo, Manoel Jerônimo.
Por enquanto, Manoel parece ter encontrado uma fórmula simples de apresentação:
“Eu sou Manoel Jerônimo, filho de Sena Madureira, candidato a deputado federal.”
Está apresentado.
Agora falta responder à parte mais difícil:
por que o eleitor deveria votar nele?
Porque ser filho de Sena Madureira é uma origem.
Ser primo do prefeito é um parentesco.
Ser candidato é uma escolha.
Mas conquistar voto é outra história.
O efeito “família”
E aqui está talvez a parte mais interessante dessa eleição.
Gerlen corre o risco de transformar a eleição dos parentes em um plebiscito sobre o próprio governo.
Se Gene for bem, Gerlen vai dizer que o povo aprovou.
Se Manoel crescer, vai dizer que sua liderança foi confirmada.
Mas e se acontecer o contrário?
E se o eleitor resolver usar a urna para mandar um recado ao prefeito?
Aí a eleição deixa de ser apenas sobre Gene e Manoel.
Passa a ser sobre Gerlen.
E esse é o tipo de jogo que pode virar contra quem acha que está controlando o tabuleiro.
A base não é feita de concreto
Nos bastidores, o cenário também não parece tão tranquilo quanto pode parecer nas fotografias oficiais.
Político não pula de lado por esporte.
Quando começa a atravessar a rua, normalmente é porque alguma coisa mudou.
E se Gerlen continuar perdendo gente da sua base, pode chegar um momento em que ele descubra que a maior oposição ao seu projeto não está do outro lado do rio.
Está dentro da própria estrutura política que ajudou a construir.
“Não quero acordo nem para comer mandim na beira do Yaco”
Um ex-aliado de Gerlen, ouvido por este seringueiro e que preferiu não se identificar, foi direto:
“Não quero acordo nem para comer mandim na beira do Yaco. Fui enganado e não conheço o Gerlen de hoje. Fui oposição a Mazinho e servi ele muito. Hoje, o preço que recebo é ele falar mal de mim.”
É apenas o relato de um ex-aliado, mas é daqueles relatos que não deveriam ser ignorados.
Porque quando um aliado vira adversário, não se perde apenas um voto.
Perde-se uma história.
E política é feita, sobretudo, de histórias.
A máquina não vota
Gerlen pode ter máquina.
Pode ter estrutura.
Pode ter grupo.
Pode ter irmão candidato.
Pode ter primo candidato.
Pode ter aliados.
Mas a urna não recebe ordem.
A urna não tem chefe.
E o eleitor de Sena Madureira muito menos.
No final, Gene vai precisar do voto dos eleitores para continuar deputado.
Manoel Jerônimo vai precisar do voto dos acreanos para chegar à Câmara Federal.
E Gerlen, queira ou não, será julgado politicamente pelo desempenho dos dois.
Essa é a parte que talvez esteja tirando o sono de muita gente nos bastidores.
Porque se a família vencer, Gerlen sai fortalecido.
Mas se a família tropeçar, a pergunta será inevitável:
foi o candidato que perdeu ou foi o prefeito que não conseguiu transferir seus votos?
Essa resposta só as urnas vão dar.
Por enquanto, fica o aviso deste seringueiro:
Sena Madureira não é curral eleitoral.
Prefeitura não é comitê.
Cargo público não é propriedade particular.
E voto não se manda.
Voto se conquista.
Gerlen pode querer eleger o irmão.
Pode querer eleger o primo.
Pode querer transformar a eleição em uma demonstração de força.
Mas existe alguém que não participa das reuniões, não senta à mesa com os aliados, não aparece nas fotografias e não recebe ordem de ninguém:
o eleitor.
E quando o eleitor resolve falar, prefeito nenhum consegue mandar calar.
O buraco, prefeito, é mais embaixo.
