O SERINGAL

Acre, fronteira da esperança: a história de Navid Manafi, iraniano, gay, e a fuga da perseguição por liberdade

Quando o iraniano Navid Manafi Rasi decidiu abandonar seu país, não estava em busca de uma vida de luxo, de um emprego melhor ou de oportunidades financeiras. Sua fuga tinha um único objetivo: sobreviver.

Homem gay em um dos países mais rigorosos do mundo em relação à homossexualidade, Navid viveu durante anos sob o peso da perseguição, do medo e da possibilidade permanente de punições impostas pelo regime iraniano. A única alternativa foi deixar para trás família, amigos e toda a vida construída para buscar proteção em outro continente.

Ao chegar ao Brasil, em dezembro de 2019, aos 29 anos, encontrou aquilo que lhe havia sido negado desde o nascimento: o direito de existir sem esconder quem era.

Seu relato, publicado pela revista Veja, descreve o momento em que, abalado emocionalmente, pediu refúgio às autoridades brasileiras. Para ele, aquele instante marcou o início de uma nova vida, distante da violência institucional que enfrentava em seu país.

Embora Navid tenha ingressado no Brasil por uma rota diferente, sua história encontra eco em um estado que, há mais de uma década, tornou-se símbolo da solidariedade humanitária brasileira: o Acre.

O Acre que acolheu o mundo

Muito antes de o debate sobre imigração ganhar espaço na política nacional, o Acre já lidava diariamente com um dos maiores fluxos migratórios da América do Sul.

Sua localização estratégica, fazendo fronteira com o Peru e a Bolívia, transformou o estado na principal porta terrestre de entrada para milhares de pessoas que buscavam proteção internacional.

Após o terremoto que devastou o Haiti em 2010, milhares de haitianos cruzaram a Amazônia e chegaram ao Acre. Mais tarde vieram senegaleses, ganeses, dominicanos, cubanos, venezuelanos, sírios e cidadãos de dezenas de outras nacionalidades.

Todos traziam histórias diferentes.

Mas havia algo em comum.

Nenhum deles estava apenas mudando de país.

Estavam tentando sobreviver.

Assis Brasil tornou-se um dos primeiros pontos de acolhimento. Rio Branco passou a receber estruturas provisórias destinadas ao atendimento humanitário. Igrejas, organizações sociais, voluntários e órgãos públicos participaram de uma das maiores operações de acolhida já registradas na história recente da Amazônia brasileira.

Naquele período, o Acre passou a ser conhecido nacionalmente como a “porta de entrada da esperança”.

Direitos humanos não têm fronteiras

A história de Navid evidencia uma realidade muitas vezes invisível.

Em diversos países, pessoas ainda são perseguidas pelo simples fato de amar alguém do mesmo sexo, professar determinada religião, pertencer a uma minoria étnica ou manifestar opiniões políticas contrárias ao governo.

Para essas pessoas, pedir refúgio significa muito mais do que obter um documento.

Significa conquistar o direito de continuar vivo.

O Brasil é signatário de tratados internacionais de proteção aos refugiados e possui legislação que assegura acolhimento àqueles que comprovam fundado temor de perseguição. Essa política permitiu que milhares de estrangeiros reconstruíssem suas vidas em território brasileiro.

O Acre como símbolo de humanidade

Em tempos em que discursos de intolerância e xenofobia ganham espaço em diferentes partes do mundo, o Acre construiu uma história diferente.

Mesmo enfrentando limitações econômicas e estruturais, o estado mostrou ao país que solidariedade não depende do tamanho da população nem da riqueza de um território.

Mostrou que uma fronteira também pode representar um recomeço.

Foi pelas estradas acreanas que milhares de refugiados deram os primeiros passos rumo à liberdade.

Foi em solo acreano que muitos voltaram a dormir sem medo.

Foi ali que inúmeras crianças voltaram a frequentar escolas.

Que famílias voltaram a sonhar.

Que homens e mulheres passaram a acreditar novamente no futuro.

A história de Navid Manafi Rasi é apenas uma entre milhares de histórias semelhantes espalhadas pelo mundo.

Mas ela ajuda a compreender por que estados como o Acre ocupam um lugar tão importante no mapa humanitário brasileiro.

Enquanto alguns países fecham suas portas para quem foge da guerra, da fome ou da perseguição, o Acre escreveu uma página diferente da história nacional.

Transformou uma fronteira geográfica em uma fronteira de esperança.

E mostrou que, muitas vezes, salvar uma vida começa simplesmente dizendo a quem chega:

“Você está seguro. Seja bem-vindo.”

*Com informações Revista Veja

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