O SERINGAL

Debate na Band e Escala 6×1: Flávio Bolsonaro se contradiz duas vezes em menos de 24 horas; perdido ou mal assessorado?

Pressionado pelas ruas, presidenciável recua e anuncia voto pelo fim da escala 6×1, uma das principais bandeiras de Lula. Horas depois, desiste de fugir do debate da Band e confirma confronto com o petista. Mudanças sucessivas expõem dúvidas sobre os rumos de sua campanha.

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) protagonizou duas mudanças de posição em menos de 24 horas, entre terça-feira (13) e a manhã desta quarta-feira (14), levantando uma pergunta inevitável nos bastidores políticos: o senador está perdido na própria campanha ou sendo mal assessorado?

A primeira reviravolta aconteceu em torno do fim da escala 6×1. Depois de criticar a proposta, classificá-la como eleitoreira e defender o adiamento da votação, Flávio anunciou que votará favoravelmente à redução da jornada de trabalho. A decisão ocorreu em meio à pressão popular e à mobilização de trabalhadores que reivindicam dois dias de descanso por semana, sem redução salarial.

O recuo representou uma vitória política para o presidente Lula, principal defensor da proposta na disputa presidencial. Ao aderir à bandeira que vinha combatendo, Flávio acabou reconhecendo a força de uma reivindicação trabalhista transformada em prioridade pelo adversário.

Na prática, o bolsonarista entregou a Lula um importante argumento de campanha: até seu principal opositor reconhece agora a necessidade de acabar com a desgastante escala de seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

Mas a segunda contradição não demorou.

Na terça-feira, Flávio anunciou que não participaria do debate presidencial promovido pela Band, marcado para domingo (18). A declaração provocou repercussão imediata, sobretudo porque Lula havia confirmado sua participação.

Já nesta quarta-feira, o senador voltou atrás. Em vídeo publicado nas redes sociais, anunciou que estará no confronto e tentou justificar a desistência anterior como uma estratégia para obrigar Lula a confirmar presença.

A explicação, entretanto, não elimina a contradição. Pelo contrário, abre espaço para questionamentos sobre a coerência das decisões tomadas pelo candidato e sobre a coordenação política de sua campanha.

Em um dia, Flávio muda de posição sobre uma das principais propostas sociais em discussão no Congresso. No outro, anuncia que não vai ao debate e, poucas horas depois, garante que estará diante das câmeras.

Há ainda um ingrediente adicional: segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Flávio sinalizou a aliados e empresários que pretende rever pontos da proposta sobre a jornada de trabalho caso seja eleito, apesar de anunciar voto favorável agora.

É legítimo que um candidato reveja posições. O problema político surge quando mudanças tão rápidas deixam dúvidas sobre quais compromissos serão efetivamente mantidos depois da eleição.

A menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a sucessão de recuos oferece munição aos adversários e coloca sob escrutínio a capacidade do presidenciável de sustentar decisões diante de pressões.

Afinal, Flávio Bolsonaro está ajustando sua estratégia à realidade eleitoral, seguindo orientações desencontradas ou simplesmente improvisando a cada nova dificuldade?

Se a intenção era demonstrar firmeza e capacidade de liderança, as últimas 24 horas produziram o efeito contrário: um candidato obrigado a explicar por que hoje defende aquilo que ontem combatia — e por que amanhã pretende fazer exatamente o que havia descartado na véspera.

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