A oficialização do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) produziu um efeito imediato: a campanha passou a ser dominada por questionamentos sobre o passado e a situação jurídica do companheiro de chapa, deixando em segundo plano a estratégia eleitoral que buscava fortalecer o discurso de combate à corrupção e à criminalidade.
O principal foco da controvérsia é a denúncia envolvendo um suposto caso de estupro de vulnerável. O episódio ganhou repercussão nacional durante os trabalhos da CPMI do INSS, quando o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou Alfredo Gaspar de “estuprador” em sessão pública, intensificando um embate político que acabou extrapolando os limites da comissão parlamentar. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um pedido para instauração de inquérito, por envolver parlamentar com foro por prerrogativa de função. O caso foi distribuído ao ministro Gilmar Mendes, que solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República antes de decidir sobre a abertura formal da investigação. Até o momento, não há decisão determinando a instauração do inquérito.
Esse detalhe jurídico é essencial. Há uma diferença significativa entre a expectativa política de que uma investigação possa ser autorizada e a existência de uma decisão efetiva do Supremo. Até agora, Gilmar Mendes não determinou a abertura do inquérito; aguarda o parecer da PGR, procedimento previsto para casos dessa natureza.
Mesmo assim, o desgaste político é inevitável. Em uma campanha presidencial, a imagem do candidato a vice deixa de ser um assunto secundário. Qualquer suspeita envolvendo crimes de extrema gravidade, especialmente estupro de vulnerável, tende a dominar o debate público e oferece aos adversários um poderoso instrumento de exploração política, independentemente do desfecho judicial.
A polêmica também expõe uma aparente contradição da própria campanha. Durante meses, Flávio Bolsonaro afirmou que buscava uma mulher para compor a chapa presidencial, numa tentativa de ampliar o diálogo com o eleitorado feminino. A escolha final de Alfredo Gaspar frustrou essa expectativa e, em vez de ampliar a base eleitoral, acabou inaugurando uma crise política logo no primeiro dia da apresentação oficial da chapa.
Naturalmente, é indispensável observar que toda pessoa investigada ou denunciada tem direito à presunção de inocência e ao devido processo legal. A abertura de um inquérito, caso venha a ocorrer, não representa condenação nem comprovação dos fatos. Caberá às autoridades competentes avaliar se existem elementos suficientes para justificar a investigação e, posteriormente, eventual ação penal.
No entanto, a política não costuma esperar o tempo da Justiça. Enquanto o STF e a Procuradoria-Geral da República analisam o caso, a disputa eleitoral já cobra seu preço. A escolha de Alfredo Gaspar transformou uma estratégia de fortalecimento da chapa em um debate nacional sobre credibilidade, coerência política e responsabilidade na composição de uma candidatura que pretende disputar o comando do país.
