O SERINGAL

Flávio Bolsonaro, o falso cientista político e a tecla “delete”

Há algo muito mais grave do que um simples “erro de biografia” quando uma informação falsa aparece, durante anos, em perfis institucionais de um senador da República — e quando a própria assessoria do parlamentar chegou a repetir a informação em material enviado à imprensa.

Flávio Bolsonaro aparece em páginas oficiais do Senado e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro como alguém que teria feito pós-graduação em Ciências Políticas na UFRJ. O problema é que a própria universidade afirma não possuir registro de que o senador tenha estudado ali.

A explicação apresentada pela assessoria — de que tudo não passou de “erro ou equívoco”, possivelmente originado de páginas como a Wikipedia — é, no mínimo, insuficiente.

Wikipedia pode até ser editada por terceiros. Um perfil institucional do Senado, porém, não deveria funcionar à base de informação copiada da internet sem qualquer conferência. Muito menos uma biografia utilizada para apresentar um agente público à sociedade.

E a história fica ainda mais incômoda porque a informação não estava restrita a uma página qualquer.

Ela apareceu na Alerj, onde Flávio exerceu quatro mandatos de deputado estadual, e também no perfil mantido pela Agência Senado. Além disso, a mesma informação constava em perfil do LinkedIn ligado ao parlamentar e, segundo o relato, chegou a ser incluída em uma nota biográfica enviada pela própria assessoria à imprensa em 27 de julho.

Depois que a inconsistência veio à tona, a informação desapareceu do LinkedIn e foi retirada da Wikipedia. Mas apagar a informação não apaga a pergunta principal: quem colocou a pós-graduação na biografia de Flávio Bolsonaro e por que ela permaneceu ali durante tanto tempo?

A assessoria apresentou diplomas que comprovam Direito pela Universidade Cândido Mendes, especialização em Políticas Públicas pelo IUPERJ e MBA em Empreendedorismo pela FGV. Ótimo. Esses títulos estão documentados.

Mas justamente o ponto mais controverso ficou sem documento: não foi apresentado diploma, certificado ou qualquer comprovante da suposta pós-graduação em Ciências Políticas na UFRJ.

E é aí que a palavra “equívoco” começa a parecer conveniente demais.

Não se trata de discutir um detalhe irrelevante de currículo. Formação acadêmica é informação objetiva. Ou a pessoa cursou determinada pós-graduação, ou não cursou. Existe matrícula, histórico, certificado, diploma e registro institucional.

Para quem pretende disputar a Presidência da República, a exigência deveria ser ainda maior.

O cidadão comum não pode inventar uma pós-graduação no currículo sem ser cobrado por isso. Um candidato à Presidência, menos ainda. Afinal, quem pretende governar o país precisa começar pela obrigação elementar de apresentar a própria trajetória sem maquiagem.

A questão não é se Flávio Bolsonaro é graduado em Direito, possui especialização em Políticas Públicas ou MBA. Os documentos apresentados comprovam essas formações.

A questão é outra: por que uma pós-graduação que a UFRJ diz não reconhecer como existente na trajetória acadêmica do senador apareceu repetidamente em perfis oficiais e até em material produzido por sua própria assessoria?

Chamar isso simplesmente de “erro” é fácil. Difícil é explicar a origem do erro, quem o alimentou, quem o conferiu e por que ninguém percebeu antes.

Na política, currículo também é propaganda. E quando um currículo apresenta uma qualificação acadêmica que não pode ser comprovada, a sociedade tem todo o direito de desconfiar.

Não basta apagar.

É preciso explicar.

Porque, quando uma informação falsa entra no currículo de um candidato e só desaparece depois de ser confrontada publicamente, o problema deixa de ser apenas uma linha mal preenchida em uma biografia.

Passa a ser uma questão de credibilidade.

E credibilidade, especialmente para quem quer ocupar o Palácio do Planalto, não se corrige com a tecla “delete”.

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