A disputa eleitoral no Acre está cada vez menos parecida com uma competição entre projetos políticos e mais próxima da organização de uma empresa familiar.
Pai na presidência, filho no financeiro, esposa no marketing, irmão no comercial e primo cuidando da expansão dos negócios. A lógica é praticamente a mesma — muda apenas o organograma.
No lugar da sede empresarial, estão o Palácio Rio Branco, a Assembleia Legislativa, a Câmara Federal, o Senado e as prefeituras. No lugar do lucro imediato, busca-se o controle político, o prestígio social, a ocupação da estrutura pública e a influência sobre orçamentos bilionários.
Às vésperas das eleições de 2026, multiplicam-se não os grandes planos para o futuro do Acre, mas as árvores genealógicas apresentadas ao eleitor. Os registros de candidaturas revelam famílias inteiras mobilizadas para eleger os próprios parentes e conservar o poder dentro de casa.
O roteiro é conhecido, mas desta vez aparece com um grau ainda maior de descaramento.
Há candidato ao Senado que coloca a própria esposa como primeira suplente, como se o mandato fosse um patrimônio particular, transmissível por procuração ou herança.
Há prefeito do interior mobilizando a estrutura política para reeleger o irmão deputado e, de quebra, impulsionar o primo na disputa por outro cargo importante. A prefeitura corre o risco de deixar de servir ao município para funcionar como filial de um projeto familiar.
Há também ex-prefeito da capital que pretende chegar ao governo estadual sem soltar a mão da esposa, lançada na corrida por uma vaga na Câmara Federal. Se o plano funcionar, o casal amplia simultaneamente sua presença nas duas estruturas mais importantes do poder.
Em todos esses casos, a família aparece em peso: parentes coordenam, arrecadam, articulam, pedem votos, comandam equipes, ocupam espaços estratégicos e trabalham para garantir que o poder continue circulando entre pessoas do mesmo sobrenome.
Não se trata apenas de apoio afetivo, algo natural em qualquer campanha. O problema começa quando o mandato é tratado como patrimônio familiar, o partido vira instrumento doméstico e a máquina pública passa a servir como alicerce de um projeto hereditário.
Também não parece existir preocupação real com afinidade ideológica, experiência administrativa ou serviço prestado à população. O critério central é a confiança familiar: colocar o parente certo no lugar certo para proteger interesses, controlar os gastos da campanha e assegurar que eventuais vantagens políticas permaneçam dentro do mesmo grupo.
Enquanto isso, faltam propostas consistentes para uma saúde pressionada, uma educação que ainda amarga indicadores preocupantes, uma segurança pública desafiada pelo crime e uma economia que continua dependente do Estado e isolada dos grandes centros produtivos.
Em vez de um projeto de governança, oferece-se o sobrenome. Em vez de competência comprovada, apresenta-se o parentesco. Em vez de discutir o futuro do Acre, investem-se fortunas em publicidade para convencer o eleitor a escolher entre a família A e a família B.
O santinho eleitoral já não traz apenas o nome e o número do candidato. Carrega também a árvore genealógica: “filho de senador”, “irmão de deputado”, “esposa de ex-governador”, “primo do prefeito”.
O parentesco virou currículo. A família passou a funcionar como certificado de competência.
Esse movimento ameaça ressuscitar o Acre do passado, marcado pelo velho e carcomido coronelismo. A diferença é que o sistema reaparece modernizado: veste terno, contrata marqueteiro, domina as redes sociais e se esconde atrás de diferentes siglas partidárias.
Antes, o coronel controlava a cidade por meio de jagunços e favores. Hoje, o domínio se estabelece com emendas parlamentares, cargos comissionados, contratos, suplências e parentes espalhados por posições estratégicas.
Forma-se uma verdadeira teia de proteção e blindagem mútua. Um parente governa, outro legisla, um terceiro fiscaliza, enquanto os demais administram a campanha, os partidos e os interesses do grupo.
Se essa farra de parentescos for consagrada pelas urnas em 2026, o Acre poderá oficializar um grave retrocesso: voltar a ser comandado por três ou quatro famílias, proprietárias de cartórios políticos que se revezam no poder como nas antigas oligarquias da borracha.
Isso não é renovação. É sucessão hereditária.
É a privatização da política.
E, quando o Estado vira uma empresa familiar, o povo deixa de ser tratado como cidadão e passa a ser visto como funcionário — mal pago, sem voz e convocado apenas para renovar, pelo voto, o contrato de poder dos patrões.
