EDITORIAL | O SERINGAL
A eleição presidencial de 2026 também coloca em discussão, no Acre, um projeto político que ultrapassa as fronteiras do estado. No centro desse debate está o senador Márcio Bittar, aliado do bolsonarismo e personagem de especulações sobre uma eventual participação em um governo de Flávio Bolsonaro.
Nos bastidores políticos, circulou a hipótese de que Bittar poderia ocupar um ministério e, posteriormente, disputar o governo acreano. Sem confirmação pública de um plano nesses termos, a possibilidade já suscita uma questão legítima: até que ponto os interesses nacionais de uma liderança partidária devem influenciar os destinos políticos de um estado?
O Acre não pertence a nenhum senador, governador, partido ou grupo ideológico. Seu futuro não pode ser tratado como extensão de um projeto pessoal de poder, tampouco como prêmio de consolação de disputas nacionais.
A trajetória política de Márcio Bittar merece ser examinada para além da proximidade com a família Bolsonaro. A população tem o direito de conhecer os resultados concretos de sua atuação parlamentar, os recursos destinados aos municípios, as iniciativas legislativas de sua autoria e os efeitos de suas posições políticas sobre a vida dos acreanos.
É nesse terreno que também deve ser enfrentada a crítica recorrente à produtividade do parlamentar. Chamá-lo de improdutivo, como fazem seus críticos, é uma avaliação política que exige confronto com dados verificáveis: projetos apresentados, leis aprovadas, emendas executadas e ações efetivamente realizadas. A cobrança por resultados não deve desaparecer sob o barulho das disputas ideológicas.
O mesmo rigor precisa alcançar as escolhas eleitorais da sociedade acreana. A forte identificação de parcelas do eleitorado com o bolsonarismo não dispensa uma reflexão sobre o que essa aliança trouxe ao estado. Representação política não se resume à fidelidade a um líder nacional, e o voto não deveria funcionar como autorização permanente para que compromissos locais sejam subordinados às conveniências de Brasília.
Há uma contradição que merece atenção: enquanto o Acre enfrenta problemas históricos de infraestrutura, saúde, geração de empregos e dependência econômica, parte do debate político permanece concentrada na distribuição de cargos, na formação de alianças e na sobrevivência de grupos de poder.
Se houve erro na aposta de determinados setores do eleitorado no bolsonarismo, como sustentam seus adversários, essa conclusão precisa ser construída a partir dos resultados de governo e das políticas públicas. Da mesma forma, a recondução de qualquer parlamentar ao Congresso deve ser analisada à luz de sua atuação efetiva, e não apenas da força de sua identidade partidária.
A eventual ambição de Márcio Bittar de chegar a um ministério ou ao governo do Acre é legítima dentro das regras democráticas. O que não pode ficar fora do debate é a obrigação de explicar quais compromissos assumiria com a população, quais resultados já entregou e por que seu projeto político deveria merecer confiança.
O Acre não pode ser refém de Márcio Bittar — nem de qualquer outro personagem que pretenda confundir liderança política com direito de propriedade sobre o estado.
A democracia oferece aos políticos a possibilidade de disputar o poder. Aos cidadãos, assegura algo ainda mais importante: o direito de exigir resultados, fiscalizar mandatos e decidir seus próprios caminhos.
O futuro do Acre precisa ser discutido em torno de seus problemas reais, não das ambições de quem deseja governá-lo.
