A eleição mal começou e a velha amizade política já parece ter virado acerto de contas. O senador Márcio Bittar e seu primeiro suplente, Eduardo Velloso, que um dia dividiram chapa e a mesma vaga no Congresso Nacional, agora dividem também um território muito menos confortável: a disputa pela mesma cadeira no Senado.
Bittar resolveu tirar do armário o passado e jogar na mesa que foi responsável pelo mandato de Velloso. No contra-ataque, o deputado tentou manter a serenidade, mas não conseguiu esconder a indignação ao ser chamado de “esquerdista” pelo ex-amigo e ex-companheiro de chapa.
A resposta veio na medida do desconforto: se Bittar queria tanto defender as pautas da direita, poderia ter ajudado mais quando teve oportunidade.
É aí que a disputa ganha contornos mais interessantes.
Porque, quando um político diz que foi responsável pela chegada de outro ao Congresso, a pergunta inevitável aparece: o mandato é um patrimônio pessoal de quem ajudou a eleger ou pertence ao eleitor que depositou o voto naquela urna?
E há uma segunda pergunta, feita por Velloso, ainda mais indigesta — justamente por isso, talvez a mais importante:
É preciso pagar alguma conta para assumir uma cadeira no Senado?
Não se está falando, evidentemente, de dinheiro. A pergunta é política. Lealdade tem preço? Gratidão tem prazo de validade? Quem ajuda alguém a chegar ao poder passa a ter direito de cobrar fidelidade eterna?
Velloso, que agora disputa o Senado contra o próprio Bittar, parece ter entendido que a eleição mudou as regras do jogo. O que antes podia ser tratado como conversa entre aliados agora virou munição pública.
E Bittar, ao lembrar que foi responsável pelo mandato do antigo suplente, talvez esteja cometendo um erro clássico da política: confundir o favor político de ontem com o direito de controlar o voto de amanhã.
O homem que ajudou a colocar o outro no Senado agora precisa enfrentá-lo nas urnas. O ex-suplente virou adversário. O ex-amigo virou concorrente. E a antiga chapa, que deveria representar unidade, virou palco de cobrança, ressentimento e troca de farpas.
No fim, resta ao eleitor a pergunta que nenhum dos dois parece disposto a responder diretamente:
quando se conquista um mandato pelo voto popular, a quem ele pertence — a quem ajudou a construir a candidatura ou a quem efetivamente colocou o nome na urna?
Porque, se a cadeira do Senado vem acompanhada de uma fatura política, seria bom saber quem emitiu a nota e qual é o valor da conta.
