O SERINGAL

Socorro Neri, o alvo: candidatos enfrentam a missão de vencer a campeã de votos e produtividade

A disputa pelas oito vagas do Acre na Câmara dos Deputados tem muitos candidatos, diferentes estruturas partidárias e campanhas milionárias. Mas todos — inclusive os outros sete integrantes da atual bancada que buscam a reeleição — carregam um desafio em comum: desbancar a professora Socorro Neri, atual campeã de votos do estado e parlamentar que chega ao novo pleito com um mandato recheado de entregas concretas.

Em 2022, Socorro Neri foi eleita deputada federal com 25.842 votos, a maior votação entre todos os concorrentes acreanos. Ficou à frente de políticos experientes, candidatos com estruturas robustas e nomes já conhecidos em praticamente todo o estado. – reconhecimento, inclusive, do eleitorado de Rio branco, onde a parlamentar foi prefeita com aprovação acima da média. O resultado colocou sobre seus ombros a responsabilidade de justificar, em Brasília, cada voto recebido. A apuração registrou Socorro como a candidata mais votada do Acre.

Três anos e oito meses depois, a professora, filha da notável deputada federal Adelaide Neri, não retorna às urnas sustentada apenas pela lembrança daquela vitória – e do legado de sua genitora, de lembranças tão prementes.

Ela volta com um título duplo que projeta uma sombra pesada sobre os adversários: além de campeã de votos, consolidou-se politicamente como uma das parlamentares mais produtivas da bancada acreana.

É justamente aí que a missão dos concorrentes se torna ainda mais dura.

Quem pretende retirar votos de Socorro Neri precisará apresentar algo além de slogans, promessas genéricas e fotografias de campanha. Terá de explicar por que merece substituir uma parlamentar que, já no primeiro mandato, conseguiu participar diretamente da aprovação e da sanção de leis de alcance nacional — façanha que muitos detentores de mandatos de oito ou 12 anos ainda não conseguiram transformar em marca própria.

Os números ajudam a explicar o tamanho do obstáculo. Somente em 2025, o balanço parlamentar registra 100% de presença no Plenário, 40 projetos legislativos apresentados, 25 propostas de emenda à Constituição, 60 matérias relatadas e participação na tramitação de 951 proposições. No mesmo período, Socorro integrou 13 comissões e subcomissões, com atuação concentrada em educação, meio ambiente, direitos das mulheres, Amazônia, orçamento e valorização dos servidores públicos.

Entre 2023 e 2026, o mandato informa ter destinado mais de R$ 280 milhões ao Acre, alcançando prefeituras, universidades, institutos federais, associações, produtores rurais e projetos comunitários. Os investimentos passaram por áreas como saúde, educação, agricultura familiar, infraestrutura, ciência, tecnologia, inclusão social e direitos humanos. Os números constam no balanço público do mandato.

Leis que saíram do papel

A maior força de Socorro Neri não está apenas na quantidade de proposições apresentadas, mas na capacidade de fazer matérias atravessarem o complicado caminho do Congresso e chegarem à sanção presidencial.

De sua autoria, o Projeto de Lei 5.696/2023 originou a Lei nº 15.276/2025, que assegura água potável, banheiros funcionais e condições adequadas de saneamento básico nas escolas públicas brasileiras. É uma norma diretamente ligada à realidade de comunidades pobres e isoladas, especialmente na Amazônia, onde ainda existem estudantes frequentando escolas sem estrutura elementar.

Socorro também teve atuação no projeto que instituiu o Sistema Nacional de Educação, convertido na Lei Complementar nº 220/2025. A legislação estabelece mecanismos permanentes de cooperação entre União, estados e municípios, organiza responsabilidades e procura reduzir desigualdades educacionais.

Outro resultado foi a Lei nº 15.360/2026, que tornou obrigatórias condições mínimas de funcionamento nas escolas públicas, como bibliotecas, laboratórios, internet, quadras cobertas, cozinhas, refeitórios, acessibilidade, energia elétrica, água tratada, esgotamento sanitário e manejo de resíduos. Socorro Neri foi relatora da proposta na Comissão de Educação da Câmara. A participação da parlamentar na aprovação está registrada pela Agência Câmara.

A deputada ainda relatou no Plenário da Câmara o chamado “Descongela”, projeto destinado a restabelecer a contagem dos 583 dias de tempo de serviço suspensos durante a pandemia para anuênios, triênios, quinquênios, licenças-prêmio e vantagens equivalentes dos servidores públicos.

Também foi responsável pelo substitutivo do projeto que criou a Política Mais Professores para o Brasil, com bolsas de incentivo para estudantes de alto desempenho ingressarem em cursos presenciais de licenciatura.

Não são discursos. São matérias relatadas, votadas, aprovadas ou convertidas em lei.

Discreta, mas presente nos 22 municípios

Socorro Neri construiu um mandato sem o excesso de barulho que costuma acompanhar determinados políticos. Sua atuação é discreta, mas possui entrada forte nos 22 municípios do Acre.

Ela conversa com prefeitos, vereadores, associações, professores, agricultores, dirigentes comunitários e instituições independentemente do tamanho eleitoral da cidade. Essa capilaridade ajuda a explicar por que uma professora, sem adotar o estilo espalhafatoso de parte da política acreana, tornou-se a candidata mais votada para deputada federal em 2022.

O reconhecimento ultrapassou as fronteiras partidárias. Em 2025, Socorro foi escolhida, por votação popular, como a melhor deputada federal do Acre no Prêmio Congresso em Foco. A premiação destacou sua atuação em educação, cultura, desenvolvimento sustentável e redução das desigualdades.

Esse desempenho coloca os adversários diante de uma pergunta inevitável: como enfrentar uma candidata que reúne votação, presença territorial, recursos destinados, projetos aprovados e reconhecimento nacional?

Campanha com o coração

Socorro Neri faz campanha com o coração porque não precisa inventar uma personagem para o período eleitoral. Não aparece nos municípios somente quando precisa pedir votos.

Esta sua última passagem pelo Juruá ajuda a compreender essa diferença. Em Cruzeiro do Sul, reuniu-se com agricultores familiares da Vila Santa Luzia, no quilômetro 30 da BR-364, ouviu quem vive e produz no campo e discutiu políticas para o assentamento, fortalecimento da agricultura familiar e necessidades concretas das comunidades rurais.

A agenda eleitoral foi apenas a continuidade de uma relação cultivada durante o mandato.

Enquanto alguns candidatos desembarcam no interior acompanhados por equipes de filmagem, gravam vídeos, distribuem abraços e desaparecem após as urnas, Socorro chega amparada por recursos, projetos e compromissos acompanhados ao longo dos últimos anos.

É essa diferença que seus adversários terão de superar.

A eleição está aberta e nenhuma candidatura pode se considerar antecipadamente vitoriosa. Mas os demais concorrentes precisam reconhecer o ponto de partida: para conquistar uma das oito cadeiras do Acre, terão de passar pela atual campeã de votos — e apresentar credenciais capazes de competir com um mandato que, em menos de quatro anos, produziu resultados que veteranos da política ainda procuram colocar no próprio currículo.

E quem quiser derrubá-la terá de convencer o eleitor de que consegue fazer mais do que a professora já fez.

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