O SERINGAL

17 mil crianças sem pai no papel: o estranho retrato de uma década no Acre, revela reportagem

Há números que não deveriam passar despercebidos. Quase 17 mil crianças registradas no Acre, em dez anos, sem o nome do pai na certidão de nascimento é um deles. É o que revela uma reportagem do Jornal A Tribuna, cujos detalhes estão logo a seguir:

Não são apenas números de cartório. São 16.973 histórias de crianças que chegaram à vida civil com uma lacuna documental que, em muitos casos, pode representar também uma ausência afetiva, familiar ou simplesmente uma paternidade que nunca foi formalizada.

Em Rio Branco, a situação se repete em escala igualmente impressionante: 5.726 crianças foram registradas somente com o nome da mãe entre julho de 2016 e julho de 2026.

E aqui está o ponto que merece reflexão: como é possível que, em pleno século XXI, milhares de crianças continuem sendo oficialmente identificadas sem que o nome do pai sequer apareça em sua certidão?

A pergunta não é uma acusação às mães. É uma provocação à sociedade.

O que está acontecendo?

São pais que se recusam a assumir os filhos? Paternidades desconhecidas? Relações desfeitas antes mesmo do nascimento? Medo, abandono, irresponsabilidade ou simplesmente falta de interesse em formalizar a filiação?

A estatística não responde. Mas certamente merece uma investigação social muito mais profunda do que a simples divulgação de números.

No Brasil, o fenômeno ultrapassa qualquer dimensão regional: mais de 1,6 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai na última década. No Norte, são mais de 248 mil.

O mais curioso — e talvez o mais revelador — é que, paralelamente, cresce a procura pelo reconhecimento voluntário da paternidade. Ou seja: há milhares de pais que, depois de anos, finalmente decidem colocar o próprio nome onde deveriam ter colocado desde o início.

A tecnologia também já derrubou boa parte das dificuldades burocráticas. O reconhecimento pode ser iniciado pela internet e realizado gratuitamente em qualquer cartório do país.

Então, talvez a pergunta mais desconfortável seja justamente esta:

Se reconhecer um filho é hoje tão simples, por que ainda existem tantos pais que precisam ser convencidos — ou esperar anos — para simplesmente colocar o próprio nome na certidão de nascimento de uma criança que ajudaram a colocar no mundo?

O papel não substitui afeto. Certidão não fabrica pai. Mas a ausência de um nome em quase 17 mil documentos oficiais no Acre revela um problema social que merece ser encarado de frente.

Porque, no final das contas, são as crianças — e não os números — que carregam essa história.

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