Um movimento interno ganha força nos bastidores da Associação Comercial do Acre (Acisa) com o objetivo de afastar o empresário Marcelo Moura dos quadros da entidade. A articulação ocorre após a divulgação de informações que associam o presidente da CDL de Rio Branco a diálogos investigados no contexto do caso que culminou na exoneração de Júlio César Moura, conhecido como “Roxinho”, da estrutura do governo estadual.
Segundo fontes ligadas à diretoria da Acisa, o entendimento de parte dos associados é de que a permanência de Marcelo Moura na entidade pode provocar desgaste institucional e comprometer a imagem da associação diante do empresariado acreano. A preocupação aumentou após a divulgação de conversas nas quais o nome do dirigente lojista aparece relacionado a tratativas envolvendo a comercialização de espaços da Expoacre.

De acordo com informações obtidas pela reportagem, um dos diálogos considerados mais comprometedores envolve Roxinho e um promotor de eventos que vendeu camarotes da Arena de Rodeio e dos shows nacionais da Expoacre. Em determinado trecho da conversa, o empresário faz um pedido direto ao então coordenador do evento: “Não esqueça antes de decolar meu negócio, por favor”.
Pouco tempo depois, Roxinho responde: “Acabei de sair do Marcelo Moura. Fechado já”.
Na sequência da troca de mensagens, é encaminhada uma chave Pix vinculada ao Banco Digital Nubank. Logo abaixo, aparece o comprovante de uma transferência no valor de R$ 20 mil em favor de Silvinha Noronha, irmã de Roxinho. A investigação conduzida pela Polícia Federal apura supostos desvios de recursos públicos e pagamento de propinas relacionados à estrutura da Expoacre. O diálogo ocorre no mesmo dia, entre às 11:46h e 11:47h.
Embora o conteúdo das mensagens ainda seja objeto de apuração, a referência direta ao nome de Marcelo Moura e a suposta transferência financeira elevaram a temperatura nos bastidores do empresariado acreano e fortaleceram a pressão de dirigentes da Acisa por uma posição institucional mais dura, sobretudo pela revelação, na manhã desta terça-feira, sobre um pedido de falência ou recuperação judicial pelo Grupo Recol, cujo CEO é o próprio Marcelo Moura (reveja abaixo).
O episódio ganhou repercussão porque a CDL teve participação ativa nas discussões relacionadas à organização e comercialização de espaços destinados a empresas, microempreendedores individuais (MEIs) e empreendedores informais durante a feira. Embora não exista, até o momento, acusação formal contra Marcelo Moura relacionada aos fatos narrados, integrantes da Acisa defendem que a entidade adote uma postura preventiva para preservar sua credibilidade institucional.
O jornalista Hedislandes Gadelha também protocolou um pedido de esclarecimentos junto á CDL sobre o direito de exploração comercial do estacionamento da feira agropecuária Expoacre, em Rio Branco. O Tribunal de Contas (TCE) teria apurado desvio de finalidade no recolhimento de taxas pagas pelos frequentadores da feira. Gadelha disse há pouco que não recebeu respostas da entidade, mas mantém os seguintes questionamentos:
- Processo interno, provocado pelo TCE, auditoria ou tomada de contas especial perante o Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) relativo à prestação de contas desse serviço
2. Se existe ou existiu alguma decisão, acórdão ou determinação do TCE-AC que condene a CDL à devolução de valores arrecadados no estacionamento da Expoacre, ou que aponte irregularidades no repasse/aplicação dessas quantias
3. Sob qual modalidade jurídica (convênio, termo de fomento, concessão ou autorização de uso) a CDL obteve o direito de exploração do estacionamento da referida feira, e quais foram os critérios de partilha ou destinação dos lucros obtidos. “Uma entidade sem fins lucrativos não pode ser beneficiada por recursos extraídos de evento do povo”, sustenta o jornalista”. - Paralelamente, outro foco de tensão envolve a permanência da CDL no prédio da própria Acisa. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que Marcelo Moura está sendo convidado a desocupar as salas atualmente ocupadas pela entidade lojista, que funciona, ironicamente, dentro da sede da associação comercial. Há relatos de que a receita da Acisa sofreu um baque enorme após Marcelo concentrar na CDL a arrecadação de parte dos seus mais de 400 filiados. E também retirou da Acisa, antes vista como co-irmã, o direito de receber pelas taxas referentes às consultas ao CPC-Serasa, autenticações digitais e outros serviços.
O contrato de locação foi celebrado durante o período em que Marcelo Moura presidia a Acisa. O documento contém uma cláusula que permitiria a renovação automática do aluguel, que vence agora em julho, mas diretores da entidade avaliam a possibilidade de anulação do instrumento contratual, sob o argumento de que o acordo precisa ser reavaliado à luz dos interesses atuais da associação.
O tema, entretanto, também gera questionamentos internos. Isso porque a análise jurídica do caso deverá passar pelo advogado Gilliard Nobre Rocha, atual responsável pelo departamento jurídico da Acisa. O fato chama atenção de dirigentes da entidade porque Rocha atua, simultaneamente, na defesa de Marcelo Moura em processos judiciais particulares e teria sido indicado para o cargo justamente durante a influência exercida pelo presidente da CDL junto à associação.
Dois diretores com os quais a reportagem conversou reservadamente consideram que a situação pode representar potencial conflito de interesses e defendem que eventual parecer sobre a validade do contrato seja elaborado por consultoria jurídica independente, a fim de garantir transparência e segurança ao processo. A atual presidente, Patrícia Dossa, não foi localizada.
A movimentação ocorre em um momento de forte turbulência institucional. Nas últimas semanas, o empresariado acreano passou a acompanhar uma série de denúncias, investigações, exonerações e disputas internas envolvendo nomes ligados à organização da Expoacre, evento considerado uma das principais vitrines econômicas do Acre – o que reforça o apelo para que o governo estadual elimine do seu entorno figuras prejudiciais á transparência e ao zelo do dinheiro público.
Caso o movimento avance, a Acisa poderá convocar reuniões extraordinárias para discutir o tema e deliberar sobre eventuais medidas administrativas ou estatutárias. A expectativa é de que o assunto domine as próximas discussões internas da entidade, ampliando a pressão sobre Marcelo Moura e sobre dirigentes que defendem sua permanência.
Até o momento, Marcelo Moura não se manifestou publicamente sobre a articulação que busca seu afastamento da Acisa, nem sobre as referências ao seu nome nos diálogos relacionados ao caso Expoacre. O espaço permanece aberto para a inclusão de eventual posicionamento do empresário, da CDL de Rio Branco e dos demais citados.
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