A máxima popular de que o Acre se tornou um “cemitério de pastores” tem ecoado com força crescente nos bastidores religiosos e sociais do estado. Longe de ser apenas um ditado folclórico, a frase carrega o peso de uma realidade incômoda: o avanço de falsos profetas infiltrados em instituições religiosas. Nos últimos anos, as páginas policiais do estado estamparam casos graves envolvendo lideranças espirituais — de esquemas de corrupção e estelionato a crimes hediondos, como violência doméstica, abuso sexual e feminicídio.
Diante desse cenário que macula a reputação de líderes sérios, a sociedade questiona: como as instituições religiosas lidam, internamente, com desvios de conduta graves antes que eles se tornem casos de polícia ou processos judiciais? Enquanto algumas denominações são acusadas de acobertar o agressor sob o pretexto do “perdão divino”, outras adotam uma linha de tolerância zero para blindar a fé e a transparência.
O Modelo da Igreja Adventista da Promessa: Rigor Doutrinário e Distanciamento Político
No contrafluxo do ativismo político e dos escândalos que abalam o meio evangélico, a Igreja Adventista da Promessa se destaca pelo rigor estrutural. Com doutrina própria e matriz sabatista — sem qualquer vínculo com a Igreja Adventista do Sétimo Dia —, a denominação possui sede regional em Ji-Paraná (RO) e conta com 57 igrejas espalhadas de Vilhena a Assis Brasil (AC). No cenário global e nacional, soma 120 mil membros; no Acre, mantém um rebanho de 485 fiéis.
O grande pilar da instituição é o distanciamento absoluto da política partidária. A igreja não defende políticos, não abre seus púlpitos para campanhas e adota o evangelho como base única e inegociável.
Entrevista Especial: “Aqui não há espaço para política, e o pecado tem consequências”
A reportagem conversou neste final de semana com Cleiton Erick, líder máximo e responsável pela congregação em Rio Branco. Com firmeza, ele detalhou como a igreja se protege da polarização e como reage rigorosamente aos desvios morais de seus líderes.
Reportagem: Como a Igreja Adventista da Promessa lida com a pressão política que hoje invade os templos brasileiros?
Cleiton Erick: Aqui a gente não tem esse negócio de colocar a política dentro da igreja, por mais que haja membros que defendam algumas pautas ligadas a esse tema. Mas dentro da igreja não aceitamos, não há espaço para isso, sejam ideologias de direita, esquerda ou centro. Eu falo pela denominação a que pertenço. Eleições são momentos civis, não eclesiásticos. Para se ter uma ideia do nosso rigor, nas eleições de 2018, alguns membros foram disciplinados por descumprirem essa regra e tentarem trazer o debate partidário para o ambiente de culto.
Reportagem: Recentemente, temos visto casos gravíssimos de crimes cometidos por líderes religiosos no estado. Como funciona o sistema de fiscalização interna de vocês para evitar que o mau comportamento de um líder manche a instituição?
Cleiton Erick: A nossa igreja somente decide mediante análise de uma convenção regional, composta por 22 pastores — incluindo o superintendente, seu vice, o líder pastoral e outros oficiais. Esses homens precisam ser amplamente conhecidos de toda a comunidade para exercerem seus cargos. Nós palestramos, pesquisamos, questionamos a circunstância familiar em tempo integral e buscamos conhecer mais e mais cada membro. Nada passa impune diante do que nós também possamos fazer de errado, pois somos observados de perto pela hierarquia máxima.
Reportagem: Como os fiéis reagem quando uma liderança falha, e qual é a punição aplicada nesses casos?
Cleiton Erick: Quando um líder cai no pecado, todos sofrem. É uma dor coletiva. Dependendo da situação, afastamos e disciplinamos o pastor imediatamente. Em 23 anos de existência da nossa atuação, jamais vivenciamos situações hediondas, como crimes de violência ou abusos que se vê ultimamente nos noticiários. Infelizmente, muitas igrejas acobertam o agressor-pecador. Nós não. Nos últimos 8 anos, por exemplo, 5 pastores foram demitidos por causa de adultério, que é o desvio de conduta mais recorrente. Eles perderam o direito de aconselhar casais, realizar cerimônias e exercer qualquer missão pastoral. O indivíduo será acompanhado pela igreja como um membro ativo em sua restauração espiritual, mas jamais voltará ao pastoreio.
Reportagem: O que o senhor pensa sobre a postura de outras congregações que dão proteção a pastores que incorrem em crimes ou desvios graves, permitindo que eles voltem ao púlpito após um tempo?
Cleiton Erick: A própria Bíblia condena duramente os desvios de conduta. O texto sagrado também alerta que entre nós haverá falsos mestres; isso é impossível de evitar por completo, pois o ser humano é falível. Mas há um aviso severo no Livro de Jeremias: “Ai dos pastores que dispersam as ovelhas do meu pasto”. Na nossa igreja, quando um pastor cai, ele nunca mais volta ao pastoreio. Essa é a nossa diferença para muitas outras igrejas onde, após uma queda grave, o líder retorna ao altar tempos depois como se nada tivesse acontecido. Para nós, a liderança exige uma reputação ilibada que, uma vez quebrada, inviabiliza a função de guiar o povo.
A Urgência da Autocrítica Institucional
O posicionamento da Igreja Adventista da Promessa acende o debate sobre a necessidade urgente de uma autocrítica dentro das instituições religiosas que atuam no Acre. O avanço de crimes camuflados pela retórica religiosa exige que a fé não seja usada como escudo jurídico ou mecanismo de impunidade. Exemplos de fiscalização interna rígida mostram que a punição institucional e o respeito às leis vigentes são os únicos caminhos possíveis para separar o joio do trigo e impedir que os templos se tornem refúgios de criminosos.
