O SERINGAL

Agora todos são “amigos” de Chico Melo? Aa campanha da hipocrisia por votos e o jornalismo marrom que negocia emoção por audiência

A suposta invasão à residência do jornalista Chico Melo extrapolou, em poucas horas, os limites de um caso policial para se transformar em um produto político e midiático. Antes mesmo que a Polícia Civil pudesse reunir os primeiros elementos técnicos da investigação, surgiram os juízes de ocasião, os palanques improvisados e os discursos prontos. Num passe de mágica, uma ocorrência policial virou bandeira eleitoral.

E é justamente aí que mora a maior vergonha.

Todos os dias, cidadãos acreanos têm suas casas invadidas. Comerciantes são assaltados. Trabalhadores apanham. Mulheres são vítimas de violência. Famílias vivem o trauma da criminalidade. Na esmagadora maioria das vezes, essas histórias terminam friamente registradas em um boletim de ocorrência. Sem notas inflamadas de políticos. Sem vídeos emocionados. Sem entrevistas patrocinadas. Sem caravanas de solidariedade.

 

Risível a manchete segundo a qual  o casal Edvaldo Magalhães e Perpétua Almeida, ele deputado e ela ex-deputada, não descartam crime político.

Atuam na polícia? Tem cabedal para opinar em investigação em andamento?

E o Jorge Viana, ferrenho crítico de jornalistas, aos quais detesta, cujo entorno sempre tratou repórteres como “essa turminha sem qualificação”?

O que dizer da fatídica ocorrência, em 2010, quando da invasão á residência do jornalista Tião Maia, onde bandidos mataram a sua companheira? O escriba podia ter politizado, mas optou por esclarecer ter sido obra de criminosos alheios áo momento político-eleitoral, quando então candidato Tião Viana pleiteava a reeleição. O exemplo serve para todos que julgar sem provas.

Onde estavam esses mesmos parlamentares, prefeitos, candidatos e aspirantes a cargos públicos quando jornalistas acreanos eram perseguidos por organizações criminosas, ameaçados de morte e obrigados a trabalhar escoltados por policiais durante o período do chamado “Esquadrão da Morte”? E quando um amigo em comum teve a casa arrombada e a arma apontada para a cabeça de sua filha pequenininha? Onde estavam as manifestações indignadas quando profissionais da imprensa precisavam escolher entre continuar investigando ou preservar a própria vida? Ou quando um alto faccionado bateu à porta do jornalista que acabara de lançar, na TV, notícia que tinha como fonte o próprio Judiciário?

 

O silêncio daquela época contrasta violentamente com o barulho ensurdecedor de agora.

A diferença não parece ser a gravidade dos fatos.

A diferença é o calendário eleitoral.

Obviamente, a dor da vítima precisa ser respeitada, mas é impossível ignorar que, embora pouco conhecido, ascende em discreta notoriedade apenas – e tão somente – por críticas à atual administração pública, justamente quando a sucessão ao governo entra em sua fase decisiva. A coincidência temporal impõe cautela, não conclusões apressadas. Em vez disso, assistiu-se à tentativa de transformar uma investigação ainda embrionária em combustível político.

Isso não é solidariedade.

É oportunismo.

Mais grave ainda é assistir a candidatos e lideranças políticas emitindo sentenças antes mesmo de a polícia concluir as primeiras diligências. Em um Estado Democrático de Direito, ninguém deveria condenar, absolver ou atribuir motivações antes da produção das provas.

Quem faz isso não está buscando justiça.

Está buscando votos.

A própria autoridade policial responsável pelo caso adotou a única postura compatível com uma investigação séria: nenhuma hipótese deve ser descartada. Absolutamente nenhuma. Inclusive eventual motivação política, interesses pessoais ou até mesmo a possibilidade de uma armação. É assim que trabalha a polícia. Investigando fatos, não narrativas.

Enquanto isso, parte da imprensa resolveu abandonar qualquer compromisso com a prudência.

Em vez de aguardar o avanço das investigações, transformou o episódio em um reality show policial. Bancadas de programas abriram espaço para entrevistas emocionadas. Veículos passaram a explorar imagens, versões e especulações como se já existisse uma conclusão definitiva. Em alguns casos, chegou-se ao extremo de custear o deslocamento da suposta vítima para programas de entrevistas, alimentando um espetáculo cujo maior combustível parece ser a audiência.

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Cliques.

Engajamento.

A notícia deixa de ser informação para se tornar entretenimento.

E, quando isso acontece, morre o jornalismo.

O que se vê é uma imprensa marrom, sedenta por audiência, disposta a transformar qualquer tragédia — ou suposta tragédia — em produto de consumo imediato. Não bastasse isso, em determinados segmentos, o comportamento alimenta a velha percepção de que parte do jornalismo abandona sua função fiscalizadora para atuar mediante pressão política, criando um ambiente em que narrativas passam a servir como instrumentos de influência sobre autoridades justamente às vésperas de uma campanha eleitoral.

A sociedade precisa rejeitar esse modelo.

Investigar não é condenar.

Questionar não é atacar a vítima.

Ter prudência não significa proteger criminosos.

Da mesma forma, prestar solidariedade não autoriza transformar uma investigação policial em palanque.

A democracia exige responsabilidade. O jornalismo exige ceticismo. A política exige decência.

Quem transforma dor em propaganda desrespeita a própria vítima que diz defender.

Quem transforma investigação em campanha agride o devido processo legal.

Quem sentencia antes da perícia não busca a verdade; busca apenas confirmar a narrativa que melhor lhe convém.

No fim, resta uma pergunta que deveria constranger muitos dos que hoje disputam espaço diante das câmeras:

Se amanhã outro trabalhador, um agricultor, um motorista, uma dona de casa ou qualquer cidadão anônimo tiver sua residência invadida, receberá a mesma solidariedade pública, os mesmos pronunciamentos indignados e a mesma mobilização política?

Todos sabem a resposta.

E é justamente essa resposta que escancara a hipocrisia.

Punam-se os culpados, sejam políticos, bandidinho anônimo ou não.

Mas exige-se vergonha antes de os fatos serem esclarecidos.

A rede social, realmente, deu voz aos idiotas.

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