A apreensão de diversos celulares e acessórios arremessados para dentro da Unidade Penitenciária Evaristo de Moraes, em Sena Madureira, na madrugada deste domingo (26), expõe mais uma vez uma realidade que se repete há anos no sistema prisional acreano: a impressionante insistência de criminosos em abastecer presídios com aparelhos que, muito além de simples meios de comunicação, são verdadeiras centrais de comando do crime organizado.
Segundo o Iapen e a Polícia Penal, a rápida atuação dos policiais impediu que um detento recolhesse um dos pacotes lançados por suspeitos que atravessaram a BR-364 para realizar a ação. Outro pacote também foi interceptado, evitando que o material chegasse às mãos dos presos. O trabalho dos policiais penais merece reconhecimento. Agiram com rapidez, impediram o êxito da investida criminosa e cumpriram seu dever.
Mas o episódio levanta uma pergunta que permanece sem resposta convincente: por que ainda é tão fácil tentar abastecer os presídios com celulares?
Não é segredo para ninguém que boa parte das ordens para assassinatos, extorsões, ataques e outros crimes parte justamente de dentro das unidades prisionais, por meio desses aparelhos. Muitas execuções que chocam a população são autorizadas por criminosos que deveriam estar completamente isolados da sociedade.
Também não é novidade que o sistema penitenciário recebeu, ao longo dos anos, detectores, scanners, bloqueadores de sinal, câmeras, equipamentos eletrônicos e uma série de investimentos destinados exatamente a impedir esse tipo de comunicação ilícita. Se toda essa parafernália tecnológica funcionasse com a eficiência esperada, o comando de crimes a partir das celas seria drasticamente reduzido.
O caso de Sena Madureira mostra que o problema continua longe de ser solucionado. Desta vez, a tentativa foi frustrada. Em quantas outras ela foi bem-sucedida?
As autoridades costumam divulgar as apreensões — e elas são importantes, porque demonstram vigilância e comprometimento operacional das equipes de plantão. O que raramente se explica é por que o fluxo de celulares para dentro dos presídios continua sendo um fenômeno recorrente, apesar de tantos investimentos, protocolos e tecnologias de segurança.
Enquanto essa resposta não vier acompanhada de resultados concretos, o mistério permanecerá. Afinal, se os celulares continuam entrando — ou ao menos sendo lançados com frequência para dentro das unidades —, é inevitável que a sociedade questione onde está a falha.
A população espera mais do que relatórios de apreensão. Espera um sistema prisional realmente capaz de impedir que criminosos transformem suas celas em escritórios do crime organizado. Até lá, cada celular apreendido será motivo de alívio. E cada tentativa registrada servirá para lembrar que a batalha ainda está longe de ser vencida.
