A nota oficial divulgada pela Construtora Cidade nesta segunda feira, três dias após o desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, chama atenção não apenas pelo que diz, mas principalmente pelo que deixa de dizer.
Ao longo do comunicado, a empresa procura enfatizar que a estrutura foi construída dentro das normas técnicas e atribui o colapso a um suposto fenômeno natural de “terras caídas”, classificado como extraordinário e imprevisível. Também destaca que recomendou a interdição da ponte ao Deracre cerca de 24 horas antes da tragédia.
No entanto, a nota silencia sobre um dos pontos mais graves revelados após o desastre: a determinação judicial que obriga a construtora a adotar medidas emergenciais imediatas para conter riscos na área afetada.
A decisão obtida pelo governo do Acre estabelece que a empresa deve promover sinalização, isolamento do local, estabilização provisória da estrutura remanescente e todas as ações técnicas necessárias para evitar novos desabamentos, sob pena de multa diária de R$ 100 mil. Além disso, a construtora foi obrigada a enviar equipe especializada para vistoria e elaboração de laudo técnico, sob multa de R$ 50 mil por dia em caso de descumprimento.
Apesar da gravidade dessas determinações, a empresa não informa à sociedade se já iniciou as medidas exigidas pela Justiça, tampouco apresenta cronograma ou compromisso público para o cumprimento das obrigações impostas. O silêncio é ainda mais significativo porque a decisão judicial foi motivada justamente pela necessidade de resposta imediata diante dos riscos existentes no local.
Enquanto a construtora concentra sua defesa na tese de que o desabamento teria sido causado por fatores geológicos imprevisíveis, permanece sem resposta uma pergunta fundamental para a população de Sena Madureira: quais providências concretas estão sendo adotadas neste momento para garantir a segurança das famílias e evitar novos acidentes?
A ausência dessa informação em uma nota que se propõe a esclarecer os fatos enfraquece o discurso de transparência defendido pela empresa. Em situações de crise, tão importante quanto discutir as causas do desastre é demonstrar responsabilidade diante de suas consequências.
A atuação do governo estadual e da Justiça evidencia que as autoridades consideraram insuficientes as ações apresentadas até agora, razão pela qual determinaram medidas compulsórias, prazos rigorosos e multas elevadas. Diante disso, a sociedade aguarda menos explicações sobre o passado e mais respostas sobre o presente: o que está sendo feito, efetivamente, para conter os riscos e reparar os danos causados pelo desabamento?
