O SERINGAL

Duas crianças intubadas como prioridade: prefeito de Feijó transforma morte de amigo em palanque político, é desmentido e deve desculpas públicas

A morte precoce de Anderson da Costa Monteiro Montefusco, aos 32 anos, é uma tragédia. Uma vida perdida, uma família devastada e amigos mergulhados numa dor que merece, acima de qualquer coisa, respeito.

É exatamente por isso que causa indignação ver uma tragédia dessa dimensão ser arrastada para o terreno da disputa política antes mesmo de uma apuração técnica definitiva dos fatos.

O prefeito de Feijó, Railson Ferreira da Silva, resolveu apontar o dedo para o serviço aeromédico do Estado e resumir um episódio extremamente complexo a uma frase de enorme gravidade: “a aeronave não veio”.

O prefeito, que é delegado e, pelo que se nota, faltou às aulas de investigação, mentiu. E mentiu descaradamente.

A versão apresentada publicamente pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre (leia a nota abaixo), entretanto, descreve uma situação bastante diferente.

Segundo a nota de esclarecimento do governo, a aeronave foi, sim, deslocada para Feijó. O problema é que havia, naquele momento, outros pacientes submetidos à regulação médica e considerados de maior urgência.

E esse detalhe muda substancialmente a discussão.

De acordo com a Sesacre, duas crianças estavam entre os atendimentos prioritários do transporte aeromédico. Os casos apresentavam gravidade suficiente para determinar, por critérios médicos, a ordem das remoções. Enquanto esses pacientes eram transportados, Anderson permanecia recebendo assistência no Hospital de Feijó e sendo preparado para suportar a transferência até Rio Branco.

Depois desses atendimentos, conforme a versão oficial, a aeronave seguiu para Feijó para buscar Anderson.

Quando pousou, porém, era tarde demais.

O servidor havia sofrido uma parada cardiorrespiratória. Apesar das manobras de reanimação, morreu no hospital.

A NOTA QUE CONTRADIZ A ACUSAÇÃO

Há uma diferença enorme entre dizer que “a aeronave não veio” (assista abaixo) e informar que a aeronave estava realizando outras remoções classificadas como mais urgentes e, posteriormente, deslocou-se até Feijó.

Não se trata de detalhe semântico.

Trata-se do coração da acusação.

Se a cronologia apresentada pela Sesacre estiver correta — e a própria Secretaria anunciou que as circunstâncias serão analisadas tecnicamente —, não houve simplesmente uma decisão de abandonar um paciente em Feijó. Houve uma fila de regulação envolvendo pacientes graves e uma única estrutura aeromédica disponível para atender ocorrências simultâneas naquela região.

Quem administra uma cidade deveria compreender a diferença.

Mais ainda um prefeito que carrega o título de delegado e, portanto, conhece — ou deveria conhecer — a responsabilidade existente antes de atribuir publicamente uma conduta grave a profissionais e servidores.

Acusar equipes responsáveis pela regulação de terem deixado de socorrer um paciente não é uma afirmação banal. É uma imputação que exige prova, documentação, cronologia e conhecimento dos protocolos médicos envolvidos.

Grito não substitui prontuário.

Vídeo não substitui regulação médica.

Discurso político não substitui investigação.

DUAS CRIANÇAS TAMBÉM LUTAVAM PELA VIDA

Existe ainda um componente particularmente delicado que não pode ser convenientemente apagado dessa história.

Segundo a Sesacre, havia duas crianças em situação de maior urgência. Foram esses quadros que determinaram a prioridade dos transportes.

Qual seria a alternativa?

Mandar a tripulação abandonar crianças classificadas pela regulação como mais urgentes?

Ordenar que médicos ignorassem critérios clínicos para obedecer à pressão política de um prefeito?

A regulação existe justamente porque, em situações dramáticas, alguém precisa estabelecer prioridades com critérios médicos — e não eleitorais.

É legítimo questionar se o Acre possui aeronaves suficientes. É legítimo cobrar mais estrutura, mais equipes, mais bases e maior capacidade de resposta no interior.

Aliás, essa é uma discussão necessária.

Outra coisa completamente diferente é transformar profissionais que estavam atendendo outros pacientes graves em culpados públicos por uma morte antes da conclusão da análise técnica.

O PALANQUE TEM LIMITE

Railson Ferreira da Silva também é adversário político do atual governo, conforme o contexto político apresentado em torno do episódio. Essa circunstância torna ainda mais necessária a responsabilidade na escolha das palavras.

Oposição é legítima.

Fiscalização é obrigação.

Cobrar explicações é absolutamente correto.

Mas uma morte não deveria servir de combustível para transformar indignação em acusação sem que todos os fatos estejam esclarecidos.

O prefeito poderia ter exigido investigação.

Poderia ter cobrado publicamente a ampliação da frota aeromédica.

Poderia ter perguntado por que uma região inteira depende de estrutura tão limitada diante de emergências simultâneas.

Poderia ter solicitado prontuários, registros de regulação, horários dos voos e relatórios médicos.

Isso seria fiscalização.

Preferir uma afirmação categórica como “a aeronave não veio”, diante de uma versão oficial segundo a qual ela efetivamente pousou em Feijó para realizar a transferência, exige agora do próprio prefeito uma explicação igualmente pública.

RESPEITO A QUEM ESTAVA TRABALHANDO

Há médicos, enfermeiros, pilotos, socorristas e reguladores por trás de cada operação aeromédica.

São profissionais obrigados a tomar decisões terríveis quando existem vários pacientes graves e recursos limitados.

Eles podem e devem ser fiscalizados.

Mas não podem ser condenados no tribunal das redes sociais porque uma autoridade política decidiu simplificar uma tragédia em uma frase de efeito.

O O Seringal repudia qualquer tentativa de utilizar a morte de Anderson para antecipar culpados antes da conclusão da apuração técnica.

E repudia, especialmente, ataques generalizados contra profissionais da regulação sem demonstração objetiva de que tenham se omitido.

Anderson merece que tudo seja esclarecido.

Sua família merece saber exatamente o que aconteceu.

A população de Feijó merece respostas.

E os profissionais acusados também têm o direito de não carregar nas costas uma culpa que os documentos podem não sustentar.

Que vergonha, prefeito !

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) lamenta o falecimento de Anderson da Costa Monteiro Montefusco, ocorrido nesta segunda-feira, 21, no Hospital de Feijó, e presta os seguintes esclarecimentos sobre o atendimento.

O paciente deu entrada na unidade na noite de domingo, 20, onde recebeu assistência médica. Após a confirmação de infarto agudo, foi submetido à trombólise, procedimento indicado para restabelecer o fluxo sanguíneo. Diante da necessidade de continuidade do tratamento em uma unidade de referência, a equipe médica solicitou sua transferência aeromédica, mantendo o paciente sob assistência enquanto aguardava o transporte.

Conforme informações do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a programação dos voos foi definida a partir de critérios técnicos de urgência e gravidade dos casos em atendimento naquele momento. Duas crianças apresentavam quadro clínico de maior urgência, com risco iminente de necessidade de intubação, o que determinou a ordem dos transportes aeromédicos. Enquanto as crianças eram transportadas, o paciente era estabilizado para poder suportar a viagem até a capital.

Na sequência, foi programada a transferência de Anderson para Rio Branco, com o deslocamento da aeronave aeromédica até Feijó. Ao pousar no município para realizar a remoção, a equipe foi informada de que o paciente havia apresentado uma parada cardiorrespiratória no hospital e, apesar das manobras de reanimação realizadas pela equipe assistencial, havia evoluído a óbito.

A Sesacre esclarece que a regulação do transporte aeromédico é realizada com base em critérios técnicos de urgência e gravidade, mediante avaliação médica das condições clínicas de cada paciente. As circunstâncias relacionadas ao atendimento e ao processo de transferência serão analisadas tecnicamente para o devido esclarecimento dos fatos.

A Secretaria reafirma seu compromisso com a segurança e a qualidade da assistência prestada à população e manifesta solidariedade aos familiares e amigos de Anderson neste momento de dor

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