O SERINGAL

Editorial: quando o corte chega à própria carne

Há momentos em que um governante precisa escolher entre preservar aliados ou preservar o Estado. Tudo indica que a governadora Mailza Assis chegou exatamente a esse ponto.

Os movimentos silenciosos que vêm ocorrendo dentro do governo do Acre estão longe de representar uma simples reforma administrativa. Segundo apurações jornalísticas, a governadora Mailza Assis está sendo informada full time sobre movimentos  considerados graves sobre o funcionamento de determinados setores da administração.

Relatos, documentos, delações e investigações pontuais teriam chegado à mesa da chefe do Executivo, apontando para práticas que, se confirmadas pelas instâncias competentes, atentariam contra a saúde financeira do Estado e comprometeriam a própria governabilidade. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam, inclusive, que esse material continua chegando ao núcleo do governo, indicando que novas medidas ainda podem ser adotadas.

Mas a questão, segundo essas apurações, vai além das finanças.  Decisões vêm sendo tomadas para desmontar o que integrantes do próprio governo estariam classificando como um “poder paralelo” instalado em áreas estratégicas da administração. De acordo com essas fontes, haveria preocupação com a existência de estruturas informais de influência que atuariam à margem da hierarquia oficial, interferindo em decisões e concentrando informações sensíveis.

Outra preocupação relatada por interlocutores do governo diz respeito à suposta existência de uma rede de monitoramento informal — descrita nos bastidores como uma “arapongagem” — que teria funcionado em setores sensíveis do núcleo político com o objetivo de obter informações privilegiadas, inclusive sobre adversários internos e externos da governadora. Essas informações, contudo, ainda carecem de confirmação oficial e, se houver investigações em curso, deverão ser apuradas pelos órgãos competentes, com respeito ao devido processo legal.

Se essas suspeitas vierem a ser comprovadas, o problema deixará de ser apenas administrativo. Estará em jogo a própria autoridade institucional do governo. Nenhuma gestão consegue funcionar plenamente quando estruturas paralelas passam a disputar espaço com os canais formais de comando ou quando informações estratégicas circulam fora dos mecanismos institucionais.

É justamente por isso que a expressão “cortar na carne” parece definir o momento vivido pelo Palácio Rio Branco.

As mudanças já realizadas, segundo fontes próximas ao governo, estariam longe de encerrar o processo. Pelo contrário. Elas representariam apenas a primeira fase de uma reformulação mais ampla, que poderá alcançar áreas centrais da administração, incluindo o núcleo responsável pela condução financeira do Estado, o setor fazendário.

Caso esse cenário se confirme, o governo enfrentará resistências inevitáveis. Sempre que interesses consolidados são contrariados, multiplicam-se disputas internas, pressões políticas, versões conflitantes e tentativas de preservar espaços de influência.

Isso, porém, não pode servir de obstáculo caso existam elementos concretos indicando irregularidades ou práticas incompatíveis com a boa administração pública.

O Acre convive há décadas com limitações orçamentárias que exigem responsabilidade máxima na gestão dos recursos públicos. Se houver estruturas atuando para comprometer esse equilíbrio ou para exercer influência paralela dentro da administração, sua desarticulação deixa de ser uma opção política e passa a ser uma necessidade institucional.

Ao mesmo tempo, é indispensável preservar os princípios do Estado de Direito. Alegações, por mais graves que sejam, precisam ser investigadas de forma técnica, transparente e imparcial, assegurando a todos os eventualmente envolvidos o direito ao contraditório e à ampla defesa.

Se as informações que vêm emergindo dos bastidores forem confirmadas pelas investigações e pelos fatos, a atual reformulação poderá entrar para a história não apenas como uma troca de nomes, mas como a tentativa de restabelecer a autoridade institucional do governo sobre sua própria estrutura.

Porque nenhum governante pode admitir que existam centros de poder que funcionem acima ou à margem do interesse público. E nenhuma administração se fortalece quando a lealdade às instituições é substituída por redes informais de influência e informação.

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