Mais de três anos depois de uma promessa que alimentou a esperança de centenas de famílias do Vale do Rio Purus, mães e responsáveis por crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) voltam a cobrar publicamente o cumprimento de um compromisso assumido durante o período pré-eleitoral e amplamente divulgado nas redes sociais. O que vem sendo tratado como calote eleitoral está no vídeo abaixo.
O alvo das críticas é o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz, que, ainda como deputado federal, anunciou ao lado do então deputado estadual Pablo Bregense a construção de um Centro de Referência para Crianças Autistas que atenderia, além de Sena Madureira, os municípios de Feijó, Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus.
Na época, vídeos e reportagens registraram o entusiasmo dos parlamentares. Em maio de 2023, durante visita ao gabinete de Gerlen Diniz, em Brasília, Pablo Bregense afirmou que a obra sairia do papel rapidamente.
“Uma realização, se Deus quiser, até o final do ano”, declarou o deputado em maio de 2023.
Na mesma ocasião, Gerlen Diniz anunciou que já havia assegurado R$ 4 milhões para viabilizar o empreendimento, fruto de supostas emendas que seriam destinadas aos institutos e entidades afins.
Meses depois, já em pleno ambiente eleitoral, um novo vídeo reforçou a promessa. Ao lado do senador Sérgio Petecão, Gerlen Diniz e Pablo Bregense classificaram o projeto como uma “notícia maravilhosa” para toda a região. No registro, os três reafirmam que os recursos estavam garantidos.
“Têm vocês a garantia do deputado Gerlen Diniz, do deputado Pablo Bregense e do senador Petecão”, afirmava o então parlamentar.
O tempo passou. Gerlen foi eleito prefeito de Sena Madureira. Pablo Bregense concluiu seu mandato de deputado estadual. O centro especializado, entretanto, nunca saiu do papel.
Enquanto isso, quem convive diariamente com o autismo afirma continuar enfrentando praticamente a mesma realidade de anos atrás.
Segundo familiares, Sena Madureira não dispõe de estrutura suficiente para oferecer o atendimento multidisciplinar recomendado logo após o diagnóstico. Terapias como neurologia infantil, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia e acompanhamento especializado permanecem inacessíveis para a maioria das famílias.
Nas unidades públicas de saúde do município, segundo os relatos, apenas um psicólogo por unidade não consegue absorver a enorme demanda existente.
O resultado é que muitas famílias precisam viajar cerca de 144 quilômetros até Rio Branco para conseguir atendimento na rede pública ou recorrer a clínicas particulares.
O problema, porém, é o custo.
“Uma consulta com neurologista não sai por menos de R$ 800. Já uma sessão de apenas 40 minutos com a fonoaudióloga custa R$ 180”, relata Janete Alcântara, mãe atípica.
Ela afirma que manter um tratamento contínuo tornou-se financeiramente impossível.
“Para a maioria de nós é humanamente inviável, porque o tratamento é permanente e exige um desembolso muito alto.”
Questionada sobre como fica o desenvolvimento do filho de cinco anos diante da ausência das terapias recomendadas, Janete resume em duas palavras:
“Não fica.”
Outra voz que traduz a indignação das famílias é a de Arturiete Gonçalves, avó atípica.
Segundo ela, todo o processo de diagnóstico do neto precisou ser realizado em Rio Branco, com custos elevados para a família.
“Infelizmente, os nossos governantes só prometem. O assunto morreu.”
Arturiete afirma que a promessa do centro especializado criou uma expectativa que jamais foi correspondida.
“Há mais de três anos nós estamos aguardando tudo isso que eles prometeram. Meu neto fez todo o diagnóstico em Rio Branco. Foi muito difícil. Eu imagino o sofrimento das mães que não tiveram a mesma sorte. Pior para essas crianças, que não têm culpa pelo descaso das autoridades.”
Para ela, a política transformou uma necessidade urgente em discurso eleitoral.
“A politicagem atrapalha, mexe com as famílias, cria expectativas e nada anda.”
A frustração das mães cresce na mesma proporção em que aumenta o número de crianças diagnosticadas com TEA na região. Sem um centro especializado, muitas acabam iniciando o tratamento tardiamente ou simplesmente deixam de receber o acompanhamento considerado essencial para o desenvolvimento cognitivo, motor e da comunicação.
As imagens gravadas em Brasília e reproduzidas durante a campanha permanecem nas redes sociais como registro de uma promessa que mobilizou esperança em centenas de famílias.
Hoje, porém, o sentimento predominante entre as mães atípicas é outro: o de terem acreditado em um compromisso público que jamais se transformou em realidade.
Enquanto o centro prometido continua apenas nos vídeos de campanha, crianças do Vale do Purus seguem esperando pelo atendimento especializado que poderia mudar suas vidas — e que, segundo as famílias, nunca passou de uma promessa eleitoral.
