É sob essa ótica que deve ser observada a repercussão em torno da “colinha” eleitoral disseminada nas redes pelo senador Márcio Bittar (PL), candidato à reeleição.
Bittar excluiu Gladson Cameli entre as indicações de voto do senador justamente na reta final de uma campanha em que ambos disputam as duas vagas do Acre ao Senado.
O episódio ganha dimensão política especialmente porque contrasta com a aliança que o próprio Bittar anunciava meses atrás. Em março, ele foi às redes apresentar publicamente o grupo e resumiu a composição com uma frase cristalina: “é Mailza, Gladson e Márcio”.
Não era apenas retórica de pré-campanha. Já em agosto, Bittar e Gladson apareciam juntos nas articulações da coligação Avança Acre e participaram de agendas eleitorais lado a lado. Em Plácido de Castro, no fim daquele mês, os dois senatoriáveis voltaram a dividir o mesmo ato político.
Por isso, a ausência de Gladson numa orientação de voto atribuída a Bittar, às vésperas da eleição, inevitavelmente alimenta questionamentos dentro da própria base.
Há ainda um componente histórico que torna o episódio politicamente delicado. Em 2018, Gladson foi eleito governador e “empurrou” Márcio Bittar ao Congresso Nacional, colando nele, pedindo voto pra ele. Eram a mesma composição política. Registro oficial do Senado daquela época menciona expressamente que Bittar havia sido eleito “na nossa chapa”.
Oito anos depois, ambos voltaram a integrar a mesma aliança eleitoral.
É justamente por isso que o episódio da colinha merece uma explicação pública do autor – o próprio Márcio – ou o castigo do eleitor – pelo flagrante de ingratidão e um caráter tão deficiente quanto é questionável a vida pública do pai que pretende eleger o filho, tentou eleger a esposa e, pra governador, teve míseros 4 mil votos.
Não porque aliados sejam obrigados a permanecer unidos eternamente — política não é casamento —, mas porque coerência também é patrimônio de quem pede voto.
E existe uma circunstância impossível de ignorar: Gladson atravessa uma batalha jurídica envolvendo sua candidatura. Ainda assim, seria o mais votados, como atestaram todas as pesquisas eleitorais até então.
Portanto, ninguém deveria tratar a eleição como encerrada antes da abertura das urnas.
Esse talvez seja o ponto mais importante deste episódio.
O eleitor acreano ainda não votou. Nenhum candidato recebeu procuração antecipada das urnas para se declarar dono de cadeira alguma. Pesquisa é fotografia; mandato é decisão popular.
A política costuma revelar seus personagens justamente nos momentos de incerteza. Quando tudo vai bem, sobram abraços, fotografias, discursos de unidade e declarações de amizade. É quando surge o risco que se descobre quanto valiam aquelas palavras.
Se Márcio Bittar decidiu retirar Gladson Cameli de sua indicação pessoal de voto, precisa explicar politicamente por quê. O eleitor tem o direito de saber o que mudou entre o “Mailza, Gladson e Márcio” anunciado em março e a reta final de outubro.
Porque uma colinha cabe no bolso.
A memória política, não.
E amanhã serão as urnas — não a autoconfiança de qualquer candidato — que dirão quem o Acre decidiu mandar para o Senado.
Não merecemos um representante que, num piscar de olhos, também pode trair todo um povo.
