O SERINGAL

Quem fiscaliza o fiscal? O moralismo de ocasião, a sociedade suspeita e o calote trabalhista que abalam o discurso da Rádio Integração

Há um princípio elementar do jornalismo que costuma ser lembrado nas redações mais sérias: quem cobra transparência precisa estar disposto a ser transparente. Quem exige moralidade da administração pública não pode tratar os próprios problemas como assunto proibido. É justamente esse contraste que hoje cerca a Rádio e TV Integração, de Cruzeiro do Sul, a primeira afiliada da Bandeirantes no interior e segunda afiliada no Acre.

Enquanto seus espaços jornalísticos são frequentemente utilizados para fiscalizar governos, denunciar irregularidades e construir um discurso permanente de defesa da ética pública, a emissora enfrenta cinco reclamações trabalhistas movidas por ex-colaboradores que afirmam terem dedicado anos de suas vidas à empresa e saído sem receber integralmente direitos previstos na legislação. Os processos tramitam na Justiça do Trabalho e são públicos (detalhes abaixo).

Segundo o advogado que representa os trabalhadores, Paulo Gernandes, “os cinco profissionais aguardaram durante meses — em alguns casos, por mais de um ano — acreditando que a empresa resolveria espontaneamente as pendências financeiras decorrentes das rescisões contratuais”. A solução, segundo ele, nunca veio.

“As ações narram atrasos salariais, ausência de pagamento de salários, falta de quitação das verbas rescisórias e outros descumprimentos da legislação trabalhista, alegações que ainda serão analisadas pelo Poder Judiciário. As primeiras audiências de conciliação estão marcadas entre os dias 10 e 13 de agosto. Caberá inicialmente à empresa decidir se pretende buscar um acordo. Não havendo composição, a Justiça produzirá provas e decidirá sobre eventual responsabilidade da emissora”, explica.

Uma composição societária que desperta questionamentos

Outro aspecto que chama atenção envolve a composição societária da empresa.

Documentos oficiais da Junta Comercial indicam que a sócia proprietária da Rádio e TV Integração é Maria do Socorro Melo da Rocha, servidora pública aposentada e irmã do jornalista Chico Melo. Com qual lastro financeiro a emissora teria sido “comprada” da ex-prefeita de Cruzeiro do Sul, Zila Bezerra, que até então se intitula proprietária solo da emissora?

A emissora pertenceria, de fato, à família Bezerra, tradicional na política acreana nas décadas de 80, 90 e primeira década dos anos 2000? O grupo à época foi alvo de críticas por ser usada como arma política por seus proprietários. As críticas se deram pelo fato de a emissora ser aliada ao governo Tião Viana (PT), tendo inclusive seu diretor de jornalismo, o próprio Chico Melo, ocupando um cargo de confiança da Secretaria Estadual de Indústria e Comércio, liderada pelo deputado Edvaldo Magalhães, esposo da então candidata ao Senado, Perpétua Almeida.

Desperta-se questionamentos sobre a efetiva condução empresarial da emissora e sobre quem exerce, na prática, sua administração cotidiana.

Também por essa razão cresce o interesse público em torno das ações trabalhistas atualmente em tramitação.

Entre o discurso e a realidade

As reclamações judiciais apresentam um cenário que contrasta fortemente com a imagem pública construída pela emissora. Segundo os trabalhadores, anos de dedicação terminaram em espera, promessas não cumpridas e necessidade de recorrer ao Judiciário para buscar direitos que entendem lhes serem devidos. Caso essas alegações venham a ser confirmadas pela Justiça, estaremos diante de uma contradição profunda: um veículo que diariamente reivindica ética, responsabilidade e respeito à lei teria deixou de observar esses mesmos princípios em relação aos próprios empregados. Como a empresa demonstrará em juízo que cumpriu integralmente suas obrigações?

É justamente para isso que existe o devido processo legal.

Credibilidade também se prova

Nenhum veículo de comunicação está acima do escrutínio público. Quem ocupa diariamente o papel de acusador não pode reivindicar imunidade quando passa à condição de questionado. A sociedade tem o direito de conhecer não apenas os erros dos governos, mas também a conduta daqueles que se apresentam como fiscais permanentes da moralidade pública. A verdadeira credibilidade não é construída pelo volume das críticas dirigidas aos outros. Ela nasce da disposição de prestar contas quando as perguntas passam a ser feitas dentro da própria casa.

O caso provoca uma reflexão inevitável. É legítimo que qualquer veículo de comunicação exerça fiscalização sobre agentes públicos. Essa é uma das funções essenciais da imprensa.

Mas essa legitimidade perde força quando o rigor editorial parece desaparecer justamente diante dos próprios conflitos.

A credibilidade de um jornalista não nasce apenas do microfone ou da câmera. Ela depende, sobretudo, da coerência entre aquilo que se exige dos outros e aquilo que se pratica dentro da própria estrutura empresarial.

Quando um veículo transforma a moralidade em marca editorial, naturalmente passa a ser cobrado pelos mesmos padrões que impõe diariamente aos demais.

Não se trata de impedir críticas ao poder público.

Trata-se de perguntar por que as cobranças parecem ter endereço certo, enquanto problemas internos permanecem envoltos em silêncio

Posicionamento da empresa

Até o fechamento desta reportagem, O Seringal não localizou manifestação pública da Rádio e TV Integração acerca das cinco reclamações trabalhistas. O espaço permanece aberto para que a empresa apresente sua versão dos fatos, esclareça as alegações formuladas pelos ex-empregados e informe as providências que entende cabíveis. Caso encaminhe manifestação, esta reportagem será atualizada. Noutra reportagem, revelaremos as declarações dos trabalhadores segundo os quais deixaram a emissora “com as mãos abanando”, e mais adiante a degravação de áudios em que figurões da política tratam de acordos financeiros concretos na antessala da conturbada emissora de TV e Rádio.

Quanto a Zila Bezerra, nossas tentativas de ouví-la restaram infrutíferas.

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