Com milhões de brasileiros ausentes das urnas no primeiro turno, o presidente Lula enxerga na juventude, nas manifestações populares e na conquista de dois dias de descanso semanal uma oportunidade de reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro. As próximas pesquisas serão decisivas para medir se a reação das ruas está chegando ao eleitorado.
A eleição presidencial brasileira entrou em uma fase na qual os números das pesquisas já não conseguem, sozinhos, traduzir a intensidade da disputa política. O que se observa nas ruas, de Norte a Sul do país, é uma mobilização que devolveu entusiasmo à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e colocou a juventude no centro de uma estratégia de recuperação eleitoral.
As manifestações populares, com expressiva participação de estudantes, trabalhadores e movimentos sociais, alimentam a expectativa de que Lula possa transformar o engajamento político em votos no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Não se trata apenas de convencer eleitores que votaram em outros candidatos. O desafio é ainda maior: conquistar uma parcela dos brasileiros que sequer compareceram às urnas no primeiro turno.
Segundo dados divulgados pela Justiça Eleitoral, mais de 33 milhões de eleitores deixaram de votar em 4 de outubro. É um contingente extraordinário, capaz de alterar profundamente uma eleição disputada voto a voto.
A primeira evidência concreta da reação jovem
A aposta na juventude já encontrou respaldo em uma pesquisa nacional.
O levantamento BTG/Nexus, divulgado em 13 de outubro, mostrou que Lula passou de 49% para 57% das intenções de voto entre brasileiros de 16 a 24 anos, um crescimento de oito pontos percentuais em comparação com a sondagem anterior.
A evolução superou a margem de erro de seis pontos estimada para esse segmento e ocorreu justamente durante o período de mobilizações estudantis em favor do presidente.
O dado indica que a juventude pode se tornar um dos principais diferenciais da reta final. Para a campanha petista, porém, simpatia não basta. É necessário que o eleitor jovem saia de casa, compareça à seção eleitoral e deposite seu voto.
O fim da escala 6×1 pode ser o grande divisor de águas
Se as manifestações deram visibilidade à reação de Lula, a aprovação no Senado da proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1 ofereceu ao presidente uma bandeira concreta, diretamente associada ao cotidiano de milhões de brasileiros.
A defesa de dois dias de descanso semanal ultrapassa fronteiras partidárias. Ela alcança trabalhadores do comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, serviços e outros setores nos quais a jornada de seis dias de trabalho para apenas um de folga é uma realidade.
Para a juventude, especialmente aquela que acumula emprego, estudo e responsabilidades familiares, o tema pode representar muito mais que uma disputa ideológica. Trata-se de tempo para estudar, conviver com a família, descansar e construir um projeto de vida.
A conquista legislativa também oferece a Lula uma oportunidade de deslocar parte do debate eleitoral para a discussão sobre direitos sociais e qualidade de vida.
Mas é importante distinguir o impacto político da medida de sua implementação: o avanço no Senado não significa, por si só, que todos os trabalhadores já estejam usufruindo de uma nova jornada.
O que está em disputa neste momento é também a percepção do eleitor sobre quem defende seus interesses.
A escala 6×1 pode fazer o que milhões de peças publicitárias não conseguem: aproximar a eleição da realidade concreta de quem trabalha.
Especialistas identificam reação, mas alertam: a virada ainda não está garantida
A interpretação de analistas políticos reforça a importância desse momento.
Em análise publicada pela CNN Brasil na sexta-feira (16), Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria Arko Advice, avaliou que a mobilização popular e o avanço de propostas sociais contribuíram para reduzir a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O especialista também apontou um elemento central: Lula vem conquistando apoio entre pessoas que votaram em branco, anularam o voto ou não compareceram no primeiro turno.
Entretanto, Noronha fez uma ressalva decisiva. Historicamente, a abstenção tende a aumentar do primeiro para o segundo turno. Portanto, declarar intenção de voto não significa necessariamente comparecer às urnas.
Outro dado fortalece a hipótese de recuperação do presidente.
Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro, entre os entrevistados que não votaram ou escolheram branco ou nulo no primeiro turno, 43% declararam intenção de votar em Lula no segundo turno, contra 38% em Flávio Bolsonaro.
O resultado sugere uma vantagem petista nesse grupo, embora ainda não seja possível determinar quantos efetivamente votarão.
A leitura dos especialistas converge em um ponto: a disputa está mais apertada do que indicavam os primeiros levantamentos após o primeiro turno, mas Flávio Bolsonaro continua competitivo e mantém uma base eleitoral expressiva.
A semana das pesquisas pode confirmar ou frustrar a expectativa de virada
QUAEST · 14/10
46% × 44%
Flávio Bolsonaro × Lula
DATAFOLHA · 15/10
47% × 45%
Flávio Bolsonaro × Lula
O calendário eleitoral reserva uma sequência de pesquisas que poderá esclarecer se a reação observada nas ruas está se consolidando.
Segundo a revista Veja, estão previstas dez divulgações entre 17 e 21 de outubro. Na segunda-feira (19), devem sair levantamentos do PoderData, AtlasIntel e BTG/Nexus. Na terça-feira (20), Veritá e Real Time Big Data. Na quarta-feira (21), Quaest, Palver e Gerp.
Essas pesquisas terão uma importância particular porque poderão captar, conforme as datas das entrevistas, os efeitos mais recentes das mobilizações populares, da discussão sobre o fim da escala 6×1 e dos acontecimentos da campanha.
Uma nova redução consistente da vantagem de Flávio, especialmente se acompanhada por crescimento de Lula em diferentes institutos, fortalecerá a interpretação de que existe uma tendência de recuperação.
Se Lula aparecer numericamente à frente, será um acontecimento político de grande repercussão, mas ainda exigirá análise das margens de erro e da evolução das séries históricas.
Afinal, uma virada estatística não é necessariamente uma vitória eleitoral consolidada.
O que as multidões ainda precisam demonstrar
Existe uma diferença fundamental entre ocupar avenidas e conquistar a maioria do eleitorado.
Manifestações expressivas revelam capacidade de mobilização, entusiasmo e organização. Entretanto, seus participantes não representam automaticamente o conjunto dos brasileiros.
O eleitorado de Flávio Bolsonaro também apresenta elevada fidelidade, e o candidato conta com a vantagem numérica registrada nas pesquisas mais recentes.
É justamente por isso que a estratégia de Lula não pode ser interpretada apenas como uma disputa pelo tamanho dos atos públicos.
O presidente aposta na possibilidade de que a mobilização social alcance pessoas que estavam afastadas da política e que agora enxergam motivos concretos para participar da decisão presidencial.
O movimento será eleitoralmente relevante se conseguir ultrapassar o universo dos militantes tradicionais e alcançar trabalhadores, famílias e jovens que não participaram do primeiro turno.
A eleição pode ser decidida por quem ficou em casa
O grande paradoxo da eleição de 2026 é que milhões de brasileiros não participaram da primeira decisão, mas continuam habilitados a votar no segundo turno, desde que estejam com a situação eleitoral regular.
Em uma disputa na qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com vantagem inferior a dois pontos percentuais sobre Lula, qualquer mudança significativa no comparecimento pode influenciar o resultado.
A juventude aparece, portanto, como uma variável relevante, mas não exclusiva. A mobilização de trabalhadores, mulheres, idosos e eleitores que rejeitaram ambos os candidatos também pode ser determinante.
O Brasil chega à última semana da campanha diante de uma pergunta que os institutos de pesquisa tentarão responder: a recuperação de Lula representa apenas uma oscilação dentro de uma disputa equilibrada ou o início de uma mudança consistente na preferência do eleitorado?
As ruas sugerem que a campanha presidencial ganhou uma nova intensidade. Os levantamentos apontam que a distância diminuiu. E a pauta trabalhista introduziu um elemento social com potencial de repercussão eleitoral.
Ainda não há elementos suficientes para decretar uma virada.
Mas há evidências para afirmar que Lula chega à reta final em melhores condições competitivas do que aquelas observadas imediatamente após o primeiro turno.
O verdadeiro teste não será apenas saber quantos brasileiros saíram às ruas em outubro, mas quantos transformarão sua participação política em votos no dia 25.
É nas urnas, e não no tamanho das multidões, que a expectativa de virada poderá se transformar em realidade.
Editorial — O Seringal
