A exoneração do diretor administrativo e financeiro da Companhia de Habitação do Acre (Cohab), Júlio Cézar Moura, conhecido nos bastidores políticos como “Roxinho”, está oficializada. E representa muito mais do que uma simples mudança de comando dentro de uma estatal. A decisão, determinada pela governadora Mailza Assis, surge na esteira de uma reportagem-denúncia publicada pelo jornalista Assem Neto, do portal O Seringal, que revelou o nome do gestor como alvo de investigação da Polícia Federal por suposto envolvimento em um esquema de desvio de recursos públicos e pagamento de propinas durante a organização das feiras agropecuárias Expoacre, em Rio Branco, e Expo Juruá, em Cruzeiro do Sul. O ex-diretor contratou advogado pago por um empresário de Comunicação para processar o repórter, a quem chama de “mentiroso”.
Nos corredores da Cohab, a saída de Roxinho era vista há meses como uma questão de tempo. Servidores e integrantes da administração relatavam desconforto com sua permanência, apontando o ex-diretor como um dos principais gargalos da gestão. Entre as críticas recorrentes estavam a postura considerada autoritária no trato com subordinados e a frequente afirmação de que somente deixaria o cargo mediante uma determinação direta do ex-governador Gladson Cameli, de quem sempre se apresentou como amigo próximo e aliado de confiança.
A reação do governo foi rápida e contundente. Convocado extraordinariamente, o Conselho de Administração da Cohab deliberou pelo desligamento imediato de Roxinho e de outros quatro ocupantes de cargos comissionados, entre eles uma sobrinha do próprio ex-diretor. A medida demonstra que a nova gestão estadual busca se afastar de qualquer sombra que possa comprometer seu discurso de transparência e responsabilidade administrativa. Roxinho também está fora dos planos da governadora para compor a equipe que coordenará a Expoacre 2026.
Essa percepção alimentava a impressão de que havia, dentro da companhia, uma espécie de estrutura paralela de poder, incompatível com os princípios de impessoalidade que devem nortear a administração pública. A permanência de Roxinho, mesmo diante do crescente desgaste político e administrativo, transformou-se em símbolo de resistência corporativa e de uma cultura política que Mailza Assis parece determinada a superar.
A exoneração também possui forte significado político. Ao autorizar o afastamento de um nome associado ao núcleo histórico do governo anterior, a governadora envia um recado claro à máquina pública: não haverá proteção automática para auxiliares atingidos por denúncias graves ou investigações de órgãos de controle. Ainda que a apuração da Polícia Federal esteja em andamento e o contraditório deva ser respeitado, a manutenção de um gestor investigado em posição estratégica tornou-se insustentável sob o ponto de vista institucional.
Para substituir Roxinho, a direção da Cohab escolheu o publicitário Antonio Keuyte, profissional com formação superior e perfil técnico que ocupava a Chefia de Gabinete de Rafael Almeida. A mudança busca inaugurar uma nova fase na companhia, especialmente em um momento em que o governo estadual tenta fortalecer programas habitacionais e ampliar ações de regularização fundiária em diversas regiões do Acre.
Mais do que uma simples troca de nomes, a queda de Roxinho representa um divisor de águas dentro da Cohab. Ela expõe fragilidades administrativas acumuladas ao longo dos últimos anos, evidencia o peso do jornalismo investigativo na fiscalização do poder público e reforça a necessidade permanente de vigilância sobre a gestão dos recursos públicos.
A mensagem deixada pelo episódio é inequívoca: em tempos de cobrança crescente por transparência, influência política e relações pessoais já não são suficientes para garantir permanência em cargos estratégicos quando denúncias graves chegam à porta da administração pública.
Parabéns, governadora !
https://oseringal.com.br/2026/06/154128/
