Bloqueio em Ormuz amplia pressão e custo político para Trump, diz Brustolin
A decisão de Donald Trump de manter o bloqueio marítimo no Estreito de Ormuz segue ampliando tensões com o Irã e gerando impactos políticos e econômicos dentro e fora dos Estados Unidos. A medida ocorre em paralelo à tentativa de sustentar uma trégua no conflito.
Trump anunciou a extensão do cessar-fogo com o Irã na noite de terça-feira (21), um dia antes do prazo expirar. Ele afirmou que a medida continuará até que Teerã apresente uma “proposta unificada” para encerrar o conflito permanentemente.
Para o professor de Relações Internacionais da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, a estratégia revela limitações políticas internas que restringem alternativas mais agressivas.
Segundo ele, sem o bloqueio, opções como incursões militares diretas, incluindo a ocupação de ilhas iranianas, estariam no radar, mas enfrentariam forte rejeição. “Seriam medidas altamente impopulares. Trump não tem apoio para isso”, afirma. Nesse contexto, de acordo com Brustolin, o bloqueio surge como uma forma de pressão intermediária, ainda que carregada de riscos.
Brustolin também destaca que a condução da crise levanta questionamentos institucionais nos Estados Unidos. De acordo com ele, Trump recorreu ao artigo 2º da Constituição para justificar a ação militar, alegando ameaça iminente, sem consultar o Congresso.
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“Nos Estados Unidos, a guerra é vista como uma opção, não como uma necessidade”, observa. Para o pesquisador, a falta de consenso se reflete tanto na opinião pública quanto dentro do próprio governo. “Só cerca de 27% dos americanos apoiam essa guerra, e nem mesmo o gabinete do presidente apresenta consenso”.
No campo econômico, de acordo com Brustolin, o bloqueio no Estreito de Ormuz, ponto estratégico para o fluxo global de energia, produz efeitos diretos sobre o mercado e o custo de vida nos Estados Unidos.
“Trump mantém esse bloqueio sabendo que ele afeta os preços da gasolina, do diesel e do gás natural dentro do país”, explica Brustolin. Na avaliação do professor, a pressão inflacionária, já sensível, tende a impactar a percepção do eleitorado em um momento politicamente delicado.
Vitelio Brustolin também destaca que os efeitos da medida também se estendem a aliados estratégicos no Golfo. Países como Catar e Emirados Árabes Unidos enfrentam dificuldades logísticas para exportação em meio às restrições, o que amplia o desgaste diplomático. “O bloqueio não afeta apenas o Irã, mas também parceiros importantes da região”, ressalta o analista, indicando que os custos da estratégia ultrapassam o alvo inicial.
Com a proximidade das eleições legislativas e índices de aprovação em torno de 36%, segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (20), Trump enfrenta um cenário de maior vulnerabilidade política. Nesse contexto, argumenta Brustolin, os efeitos econômicos do bloqueio e o desgaste diplomático tendem a pesar ainda mais sobre sua popularidade, ampliando o custo interno da estratégia. “Ele [Trump] está próximo de seus níveis mais baixos de popularidade”, conclui.