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Do campo à etiqueta: rastreio de algodão brasileiro vira ativo global

Por CNN 19/04/2026 06:39 Atualizado em 19/04/2026 06:40

Em duas décadas, o algodão brasileiro percorreu um caminho que começa no campo e termina cada vez mais próximo do consumidor final — agora com nome, sobrenome e código de barras. Se no início dos anos 2000 o país buscava espaço no mercado internacional, hoje chega a um patamar em que 82% da produção já é certificada, segundo dados das safras 2024/25, com o ciclo 2025/26 ainda em andamento.

A fibra nacional carrega não apenas volume, mas uma narrativa cada vez mais estruturada de rastreabilidade, sustentabilidade e qualidade. O avanço acompanha o próprio salto da cultura no Brasil — tanto em área quanto em protagonismo global — e reflete uma estratégia estruturada em rastreabilidade, sustentabilidade e qualidade.

A virada começou nos anos 2000, quando o setor percebeu que, para competir com grandes exportadores, precisaria construir credibilidade técnica. Segundo Silmara Ferraresi, diretora de Relações Institucionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o primeiro movimento estruturante foi a rastreabilidade.

“A gente tinha que ter identificação fardo a fardo no Brasil, de maneira individualizada”, afirma. A solução veio em 2004, com a criação de um sistema que conecta cada fardo às análises laboratoriais de qualidade. A etiqueta aplicada à pluma passou a acompanhar o produto desde a origem, permitindo que a amostra enviada ao laboratório correspondesse exatamente àquele lote. “A análise que for feita da amostra corresponde àquele fardo, porque a etiqueta vai junto”, explica.

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Naquele momento, o nível de informação ainda era limitado, mas suficiente para dar os primeiros passos. Era possível, por exemplo, identificar a unidade de beneficiamento e a localização da produção. O segundo avanço veio em 2012, com a criação do programa de certificação socioambiental das fazendas. A adesão foi rápida e consistente, refletindo, segundo Ferraresi, o perfil do produtor brasileiro.

“Na primeira safra de certificação, a gente bateu 34% da produção. Hoje estamos falando de 82%”, diz. Ao longo dos anos, o protocolo evoluiu para acompanhar mudanças regulatórias e exigências de mercado, incorporando critérios sociais, ambientais e de governança. “O produtor busca inovação e se adequa às exigências”, afirma.

Esse movimento não ficou restrito à porteira. A certificação avançou para as unidades de beneficiamento a partir de 2020 e, mais recentemente, alcançou também os terminais logísticos ligados à exportação. A lógica, segundo a executiva, é garantir consistência ao longo de toda a cadeia. “Não fazia sentido certificar só a fazenda e não olhar para o primeiro processo de transformação”, afirma, ao destacar que essas estruturas funcionam como uma indústria e exigem padrões próprios.

Ao mesmo tempo, o setor precisou enfrentar um outro desafio: a desconfiança internacional sobre a qualidade das análises brasileiras. Clientes questionavam a precisão dos laudos HVI — padrão global para avaliação da fibra —, o que levou a um novo ciclo de investimentos. “O algodão brasileiro tem qualidade, mas os nossos laudos não estavam dentro dos padrões internacionais”, afirma Ferraresi.

A resposta foi a criação de um programa nacional de qualidade, com investimento de cerca de R$ 50 milhões e a estruturação de uma rede de laboratórios monitorados por uma unidade de referência. O sistema passou a incluir mecanismos contínuos de checagem, calibração e treinamento. Ao longo de quase uma década, os resultados apareceram. “Hoje a operação dos laboratórios está com mais de 90% de assertividade, chegando a 97% em alguns casos”, diz. Para ela, esse avanço foi essencial para sustentar a posição do Brasil no mercado global. “A confiabilidade na aferição das amostras é fundamental para o tamanho que o país se tornou.”

Com o tempo, o nível básico de informação – com a unidade e cidade do beneficiamento da pluma – saltou para o uso da rastreabilidade como ativo financeiro, além de ser elo para aberturas de mercados globais. Hoje, o Brasil é o maior exportador da fibra no mundo.

Avanços e desafios

Mais recentemente, a rastreabilidade deu um novo salto ao ultrapassar o ambiente industrial e chegar ao consumidor final. Com o movimento Sou de Algodão e iniciativas baseadas em tecnologia — como o uso de blockchain —, a cadeia passou a conectar informações desde o campo até a peça de roupa. “A gente conseguiu levar isso até a mão do consumidor final”, afirma. Desde 2021, mais de 620 mil peças foram rastreadas, sendo mais da metade apenas em 2025.

O processo exige coordenação entre todos os elos da cadeia, da fiação ao varejo. Cada etapa precisa registrar dados sobre produto, lote e volume, formando uma espécie de trilha digital. “Se alguém não lança a informação, o próximo elo não recebe o dado. A rastreabilidade não se forma”, explica. A metáfora, segundo ela, é a de um varal: “Você pendura uma coisa na outra. Se romper, desmorona”.

Apesar dos avanços, o setor ainda convive com um paradoxo. O Brasil se tornou líder global na exportação de pluma, mas perdeu espaço na indústria têxtil. Enquanto a matéria-prima ganha mercado externo, o país ocupa apenas a 25ª posição na exportação de produtos com maior valor agregado, como fios e tecidos. “Nós nos tornamos o maior exportador de pluma do mundo, mas perdemos espaço na exportação de produto acabado”, afirma a representante.

A explicação passa por custos, ambiente de negócios e competitividade internacional. Em muitos casos, segundo Ferraresi, é mais barato importar produtos têxteis do que produzi-los localmente. A concorrência com a Ásia, somada a fatores como energia, logística e investimento, limita o avanço da indústria nacional.

Ao mesmo tempo, o algodão disputa espaço com fibras sintéticas, que evoluíram tecnologicamente e seguem mais baratas. “O sintético custa metade do algodão. Preço dita comportamento”, resume. Ainda assim, ela ressalta que a fibra natural mantém diferenciais importantes, como conforto e respirabilidade, e precisa avançar em inovação para se manter competitiva.

O próximo desafio, na avaliação da executiva, vai além da produção e passa pela construção de imagem. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos produtos, rastreabilidade e transparência se tornam ativos estratégicos. Ao mesmo tempo, há uma oportunidade ainda pouco explorada: transformar a força na produção em protagonismo na na moda. “Entre exportar matéria-prima e exportar produto acabado, existe um espaço enorme de valor que o Brasil ainda precisa ocupar”, diz.

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