Mounjaro: entenda a liberação do uso pediátrico pela Anvisa

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Mounjaro: entenda a liberação do uso pediátrico pela Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, na última quarta-feira (22), resolução que autoriza o uso de tirzepatida no tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes. Diferentemente do tipo 1, doença crônica autoimune, o tipo 2 está associado, na maioria dos casos, ao excesso de peso, à resistência à insulina e a fatores como alimentação e sedentarismo.

Comercializado no Brasil como Mounjaro, o tratamento já é amplamente difundido entre adultos. A inclusão de nova faixa etária aconteceu mediante análise técnica pela agência, que confirma benefícios do medicamento para pacientes de 10 a 17 anos. 

Apesar dos debates sobre o uso do Mounjaro fora da indicação original em adultos, a associação entre o diagnóstico de obesidade infantil e o aumento de casos de diabetes tipo 2 expõe cenário favorável à aposta em novo tratamento

Aumento de casos de diabetes está associado à obesidade infantil

A obesidade infantil apresentou crescimento vertiginoso nos últimos anos. De acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), o sobrepeso entre crianças e adolescentes cresceu cerca de 9% entre 2014 e 2024. Os dados revelam que, no Brasil, o número de obesos de 10 a 19 anos chega a 840 mil.

A doença está diretamente relacionada ao aumento dos casos de diabetes. A médica Louise Cominato, chefe do serviço de endocrinologia pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas (HCFMUSP), explica que o excesso de peso desencadeia uma resistência insulínica, que pode evoluir rapidamente para a doença.

Para ela, trata-se de uma condição multifatorial: mudanças de estilo de vida, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, excesso de telas, pior qualidade do sono e menor prática de atividade física são agravantes. “Quanto mais cedo começar a obesidade, mais cedo se desenvolve essa resistência e o risco de diabetes tipo 2”, explica.

Pela definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), a diabetes tipo 2 só é diagnosticada na adolescência. No passado, chegou a ser chamada de “diabetes do adulto”, pela baixa incidência em crianças. Essa definição contribuiu para a delimitação da faixa etária do uso pediátrico da tirzepatida, apenas a partir dos 10 anos.

Como funciona o tratamento com a tirzepatida e as principais diferenças entre crianças e adultos

A Tirzepatida é uma medicação injetável que, atuando de forma análoga a proteínas do próprio corpo, estimula a produção de insulina, regulando a glicose sanguínea. Além da regulação, também tem efeito no sistema nervoso central e no trato gastrointestinal, controlando o apetite.

A necessidade de ampliar as opções terapêuticas em crianças e adolescentes se justifica pelo desenvolvimento mais agressivo da diabetes nesta idade do que na fase adulta: a doença tem progressão mais rápida e aumenta o risco de comorbidades associadas.

Ensaio publicado na revista The Lancet mostrou que a tirzepatida levou a uma redução significativa dos níveis de glicose no sangue em adolescentes com diabetes tipo 2, além de queda no índice de massa corporal. “Além do controle glicêmico, que é o desfecho primário, também se observou eficácia na questão do peso”, explicou Cominato.

Até o momento, os efeitos colaterais do uso pediátrico se parecem com os efeitos em adultos, como náuseas, dores abdominais e diarreia. A médica Julienne Carvalho, pediatra com especialização em endocrinologia pediátrica, alerta para as principais contraindicações: “Como qualquer medicação, a tirzepatida tem suas limitações”, explica. “Adolescentes com transtorno alimentar não devem usar, além de pacientes com carcinoma medular de tireoide, uma condição rara”.

Controle da venda no Brasil e uso exclusivo para obesidade

Hoje, a compra do medicamento só acontece mediante apresentação de receita e com o CPF do paciente, protocolo desenvolvido pela Anvisa para limitar o uso de canetas emagrecedoras para fins estéticos. No entanto, casos de contrabando continuam ocorrendo, sobretudo a venda ilegal no Paraguai. 

“É um desafio complexo fazer com que essas canetas, que são bons remédios, não virem apenas uma solução cosmética”, ressalta Cominato. A médica alerta para a importância do cuidado não só com relação à receita médica e ao acompanhamento profissional, mas com a procedência do medicamento.

No caso da obesidade sem diabetes, a tirzepatida ainda não tem indicação formal no Brasil. Os tratamentos para a doença aprovados para uso pediátrico se restringem a liraglutida e semaglutida em adolescentes, a partir dos 12 anos, sempre associados à dieta e outros protocolos. 

Julienne Carvalho acredita que, com a evolução dos estudos clínicos, a recomendação pode acontecer: “A partir de estudos que mostram eficácia e segurança para o tratamento de crianças com diabetes, pode ser que o medicamento seja provado para tratamento de obesidade, no futuro”, comenta.

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