Tatuagens da terra: arqueologia amazônica fortalece a memória dos povos indígenas no Acre

Às vésperas do Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, uma ação conjunta entre a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-AC), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) coloca em evidência a força da arqueologia amazônica como instrumento de memória, identidade e proteção territorial.

Realizada nos dias 17 e 18 de abril, a iniciativa integra a formação de Agentes Agroflorestais Indígenas, articulando momentos teóricos e atividades práticas de campo. A proposta é aproximar os participantes dos sítios arqueológicos — especialmente dos geoglifos — ampliando o conhecimento sobre esses bens e fortalecendo o monitoramento de áreas com alto potencial arqueológico.

Conhecidos pelos povos indígenas como “tatuagens da terra”, os geoglifos são estruturas escavadas no solo, com formas geométricas como círculos, quadrados e composições complexas, frequentemente interligadas por caminhos. Mais do que vestígios, essas construções revelam planejamento, domínio técnico e profundo conhecimento do território, desafiando visões ultrapassadas de uma Amazônia pouco ocupada no passado.

Para a superintendente do Iphan no Acre, Antonia Barbosa, a ação reforça o papel da arqueologia na preservação da memória e na valorização dos povos originários:
“Essas estruturas são marcas deixadas pelos antigos para afirmar sua presença no território. São registros de memória, identidade e conhecimento. Proteger esses sítios é garantir que essas histórias continuem existindo e sendo reconhecidas.”

Além dos geoglifos, a formação aborda temas como a terra preta arqueológica e as chamadas florestas culturais — evidências de práticas sofisticadas de manejo ambiental desenvolvidas por populações indígenas ao longo de séculos, que seguem influenciando a paisagem amazônica até os dias atuais.

A ação é articulada pela Comissão Pró-Indígena do Acre (CPI-AC), fortalecendo estratégias integradas de proteção do patrimônio cultural. Para Malu Ochoa, representante da CPI-AC, a iniciativa amplia o protagonismo indígena e qualifica a atuação nos territórios:
“A formação conecta o conhecimento técnico às vivências locais, fortalecendo os agentes como protagonistas na proteção do patrimônio e na valorização de suas próprias histórias, saberes e territórios.”

Já o promotor de Justiça Dr. Alekine Lopes, do MPAC, destaca a importância da atuação institucional articulada:
“O patrimônio arqueológico é um bem coletivo e sua preservação exige responsabilidade compartilhada. Ações como essa ampliam o conhecimento sobre esses sítios e contribuem diretamente para a construção de estratégias mais eficazes de proteção.”

Em um contexto de crescentes pressões sobre a Amazônia, a iniciativa reafirma o papel do Iphan na defesa do patrimônio cultural brasileiro e ganha ainda mais relevância ao evidenciar a profundidade histórica, a sofisticação e a continuidade das ocupações indígenas na região.

Mais do que olhar para o passado, a ação projeta futuros — em que memória, território e protagonismo indígena caminham juntos.