Após um ano, Operação Sindoor vira vitrine militar e estratégica da Índia

apos-um-ano,-operacao-sindoor-vira-vitrine-militar-e-estrategica-da-india
Após um ano, Operação Sindoor vira vitrine militar e estratégica da Índia

Um ano depois do início da Operação Sindoor, a Índia ainda não encerrou oficialmente a ofensiva e segue em níveis mais elevados de alerta na fronteira com o Paquistão, inclusive com mais contingentes militares na região. Na prática, o país sul-asiático também passou a usar a operação como uma vitrine militar e estratégica.

Até hoje, a iniciativa é tida como um dos maiores orgulhos dos militares indianos e usada como propaganda pelas Forças Armadas do país.

O governo indiano do primeiro-ministro Narendra Modi deflagrou a Operação Sindoor em maio de 2025 como resposta a um ataque terrorista que culminou na morte de 26 civis, a maioria turistas, na Caxemira controlada pelo país, no mês anterior. A Índia acusou o Paquistão de envolvimento no ato, o que governo paquistanês nega.

A Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana, controlam partes da Caxemira, mas a reivindicam integralmente e já travaram inúmeros conflitos pelo território.

Os indianos afirmam ter destruído centros de lançamento e campos de treinamento de extremistas, atacado bases aéreas em território paquistanês, neutralizado infraestruturas de vigilância do Paquistão e destruído sistemas de mísseis terra-ar de origem chinesa.

O Paquistão revidou e o momento de maior tensão militar entre os dois países durou cerca de quatro dias. A escalada causou preocupação à época pelo fato de ambos contarem com armas nucleares.

Não há mais hostilidades constantes de forma intensiva. Mesmo assim, a Índia aproveitou a experiência da operação para transformá-la em testes de prontidão, ponto de apoio de integração operacional e estímulo para a modernização de suas Forças Armadas.

Até hoje, a Índia promove exercícios e simulações militares em Pokhran, no deserto perto da fronteira com o país vizinho, como mostrou a CNN em fevereiro. São também, claro, demonstrações de força e tentativas de dissuasão para eventuais futuros ataques de inimigos – os indianos ainda enfrentam outros problemas de fronteira, inclusive com a China.

Para militares indianos ouvidos pela reportagem, a Operação Sindoor consolidou um amadurecimento da doutrina estratégica militar da Índia e, especialmente, serviu para acelerar um projeto mais ambicioso: reduzir a dependência externa, reforçar a própria indústria de defesa e consolidar o país como potência militar regional.

A meta é desenvolver tropas mais ágeis, interligadas e autossuficientes em tecnologia para enfrentar um cenário geopolítico visto como ameaçador por Nova Déli.

A cidade de Bangalore, por exemplo, se tornou um dos principais polos tecnológicos de empresas com produtos utilizados pelas Forças Armadas e de parcerias público-privadas pensadas para servir as necessidades militares indianas.

A ambição do governo do premiê Narendra Modi é tornar a Índia em um país desenvolvido até 2047, centenário de sua independência dos britânicos. Para isso, as Forças Armadas estabeleceram a década entre 2023 e 2032 como o período crítico de modernização tecnológica e estrutural.

O Brasil mantém parcerias com as Forças Armadas indianas não apenas em exercícios conjuntos, mas também com cursos e imersões de militares de ambos os países.

O Ministério da Defesa brasileiro acompanha essa projeção militar indiana e busca possibilidades de cooperações — empresas privadas nacionais também têm se aproveitado das oportunidades.

Para militares brasileiros, há aspectos nos quais o Brasil pode se inspirar no exemplo indiano de modernização das Forças Armadas. Por exemplo, o reforço da indústria nacional de defesa, prontidão permanente de parcela das tropas e os exercícios militares como ferramenta de integração entre as forças.

Ao mesmo tempo, lembram que o contexto brasileiro é bem diferente. O Brasil não enfrenta disputas territoriais nem vive sob ameaça militar permanente.

Outro ponto é que o Ministério da Defesa e as Forças Armadas frequentemente esbarram em limitações orçamentárias para investimentos, gastos altos com pessoal e dificuldades para continuar com projetos estratégicos.

A questão passa inclusive por visões político-ideológicas ao haver uma cobrança de parte do governo federal para que grande parte do orçamento da União seja dedicado a programas voltados ao desenvolvimento social do Brasil – e não a ações para uma possível guerra, como as movimentações dos militares muitas vezes são vistas.

Há uma avaliação de que, diante das ações americanas na Venezuela e da imprevisibilidade do presidente Donald Trump, essa visão tem mudado aos poucos. O governo pretende enviar um dos mais novos navios da Marinha ao norte do país, por exemplo, para projetos sociais e também para patrulha da costa próxima à margem equatorial – com perspectiva de grande reserva de petróleo a ser explorada e comercializada.

Além disso, há um entendimento de que o balanço militar global está cada vez mais difuso num cenário global instável, com ameaças que passam a envolver tecnologia, defesa cibernética e integração logística – não apenas disputas territoriais.