Atentados na Colômbia afetam campanha e intensificam críticas a Petro
O atentado que deixou ao menos 20 mortos no sudoeste da Colômbia, em meio a uma onda de ataques na região, foi rapidamente condenado pela liderança política do país, mas as mensagens também expuseram as divisões acentuadas pelo clima eleitoral, a apenas cinco semanas da votação presidencial marcada para 31 de maio.
“Nas eleições de agora, as palavras-chave são medo e ódio. E os candidatos presidenciais entenderam isso e basearam suas campanhas nisso”, disse à CNN o analista político Jaime Arango, ex-assessor de segurança nacional durante o governo de Iván Duque.
Arango afirmou que os ataques “podem exacerbar os discursos para buscar uma audiência mais convencida na hora de ir às urnas” e apontou que o temor tem maior impacto nas regiões rurais, foco de confrontos com grupos armados ilegais.
Em relação a isso, o candidato do governo, Iván Cepeda, afirmou que “é profundamente preocupante” que as ações terroristas ocorram em regiões onde, segundo ele, possuem maior apoio popular.
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“Surge uma inquietação legítima sobre se, além de causar dano e insegurança na população, esses atos buscam gerar um clima de medo que favoreça interesses de setores de extrema direita”, destacou.
Uma pesquisa da Invamer, publicada no domingo (26), mostrou que Cepeda tem uma intenção de voto de 44,3%, mais do que o dobro dos seus rivais mais próximos, mas ainda insuficiente para vencer no primeiro turno, o que exigiria a maioria absoluta dos votos.
O cientista político León Valencia, diretor da PARES (Fundação Paz e Reconciliación), lembrou o impacto do assassinato do senador Miguel Uribe, precandidato do Centro Democrático, ocorrido no ano passado, que foi um “muito mau augúrio” na corrida presidencial.
No entanto, ao contrário desse crime, ele afirmou que os recentes atos de violência “ocorrem nas zonas de fronteira e onde há presença de cultivos ilícitos, e por isso não impactam diretamente o eleitorado urbano”, como aconteceu com a morte de Uribe Turbay.
“Não é uma violência no coração das áreas com maior eleitorado, mas uma violência dispersa que busca ter um impacto regional, o que, de qualquer forma, prejudica muito o processo eleitoral como um todo”, concluído.
A oposição critica a “paz total”
A candidata Paloma Valencia, do Centro Democrático, com 19,8% na pesquisa, rejeitou a interpretação de Cepeda.
“O país não merece que se desvie a atenção insinuando que isso busca favorecer setores políticos. Chegou o momento de assumir, com todas as letras, que a Paz Total FRACASSOU”, disse no X.
Essa política, liderada pelo presidente Gustavo Petro, incluiu diálogos frustrados com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) e negociações com as dissidências, sem resultados concretos até o momento.
Valencia afirmou, após a onda de ataques, que Petro deveria estar no local dos acontecimentos e destacou que as pessoas “precisam voltar a se sentir tranquilas”.
A aspirante, nascida nesse departamento, havia reconhecido dias antes, em uma entrevista à Caracol Radio, que era um desafio fazer campanha no Cauca: “É uma terra muito petrista”.
Por sua vez, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que está em segundo lugar com 21,5%, afirmou que a violência é uma consequência direta dessa estratégia de Petro e propôs uma “guerra frontal, sem trégua nem negociação” contra os grupos armados ilegais.
O candidato do movimento Firmes por la Patria também afirmou que a violência é “parte de um plano de desestabilização do desgoverno de Petro e de seus cúmplices”, sem apresentar provas. Petro rejeitou várias vezes as insinuações de De la Espriella.
A onda de atentados do último fim de semana “prejudica muito” o desenvolvimento da campanha, “sobretudo à esquerda”, afirmou à CNN o cientista político Valencia.
“As pessoas dizem: ‘É um fracasso da paz total’. Há um aumento das ações dos grupos ilegais com os quais Petro estava negociando: o ELN, as dissidências das FARC, o Clan del Golfo. E eles vão esfregar isso na cara de Petro e da esquerda”, analisou.
A popularidade de Petro, según a pesquisa da Invamer, teve um leve declínio para 47% em relação a fevereiro, embora continue mais de 10 pontos acima da média que manteve entre 2023 e 2025.
De todo modo, o cientista político Alejo Vargas, docente da Universidade Nacional da Colômbia, concordou com as críticas à política de segurança do Governo e considerou necessário que quem vencer as eleições aplique uma mudança.
“A paz total é um fracasso e não acredito que isso vá produzir nenhum resultado. E quem for eleito presidente terá que repensar totalmente essa política ou acabá-la, mas tendo claro o que vai fazer para conter a ação dos grupos armados”, disse à CNN.
Vargas considerou que atentados como os do fim de semana “vão continuar se apresentando, infelizmente, porque vão além do processo eleitoral em si”, mas destacou que “o terrorismo aumenta o medo na população”, um fator que pode ser decisivo em um contexto eleitoral.
“Isso pode ser capitalizado pelas campanhas de ambos os lados”, afirmou.