Cadê o dinheiro, Joabe? Vereadores questionam paradeiro de R$ 6,5 milhões e denunciam desmoralização na Câmara
A Câmara Municipal de Rio Branco atravessa um dos momentos mais turbulentos de sua história recente. O que se viu na sessão desta terça-feira, 12 de maio de 2026, não foi apenas um debate parlamentar acalorado, mas um verdadeiro levante político que deixou o presidente da Casa, Joabe Lira (UB), em uma posição de isolamento severo e vulnerabilidade administrativa. Pior: ás vésperas da pré-campanha eleitoral, em que o padrinho político de Lira, o ex-prefeito Bocalom, é candidato a governador por uma aliança empobrecida, e o próprio apadrinhado ensaia candidatura a deputado estadual. As reações generalizadas a Joabe sugerem que muitos milhões estariam reservados para investimentos outros, em que “só Deus Sabe”.
O Paradoxo da Escassez em Meio à Abundância
O ponto central da discórdia reside em uma contradição contábil e narrativa. Enquanto Joabe Lira justifica o cancelamento de viagens e o represamento de ações com uma suposta “dificuldade financeira” herdada, parlamentares como Raimundo Neném (PL) trazem a público números que pintam um cenário oposto.
A denúncia de um repasse excedente de R$ 6,5 milhões por parte da prefeitura coloca o presidente em uma “saia justa” institucional:
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Se o recurso entrou, por que a gestão é classificada como falida?
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Onde está sendo aplicado o montante, dado que a mudança para a nova sede — descrita como praticamente pronta pela gestão anterior — segue estagnada?
A fala de Neném, ao dizer que “só Deus sabe o que vai acontecer com esse dinheiro”, não é apenas um desabafo; é uma acusação grave de falta de transparência que ecoa o sentimento de uma sociedade que exige prestação de contas rigorosa sobre o paradeiro de milhões de reais em recursos públicos.
O Isolamento Político e a Queda da Autoridade
A gravidade da crise se mede pela diversidade das vozes dissonantes. Não se trata apenas da oposição; o descontentamento atingiu a base e a própria mesa diretora. Quando o vice-presidente, Leôncio Castro, e o líder do prefeito, Márcio Mustafá, vêm a público desautorizar a conduta de Lira, o presidente deixa de ser um líder para se tornar um estrangeiro em sua própria Casa.
As acusações de Bruno Moraes (PP) sobre a “desmoralização” do Legislativo e o descumprimento sistemático de acordos sugerem uma presidência que perdeu o controle sobre a principal moeda de troca da política: a palavra. O episódio da posse protelada de Hildegard Pascoal e o cancelamento seletivo de passagens indicam uma gestão que, sob o pretexto da austeridade, pode estar utilizando a caneta como ferramenta de retaliação política.
Joabe Lira tenta minimizar as críticas classificando-as como vindas de uma “pequena parte”, mas o quórum de insatisfeitos na tribuna diz o contrário. O clima de “trem da alegria” versus “má versação” revela uma Câmara que gasta mais energia em conflitos fratricidas do que em legislar para o cidadão de Rio Branco.
Atualmente, o presidente Lira encontra-se sitiado. De um lado, o Tribunal de Contas e a sociedade civil observam o destino dos milhões repassados; do outro, seus pares exigem respeito à autonomia do colegiado. Se não houver uma abertura imediata das contas e um cronograma real para a ocupação da nova sede, a atual presidência corre o risco de ser lembrada não pela gestão financeira, mas pela paralisia institucional e pelo esgarçamento ético de um poder que deveria ser o exemplo da transparência.