Eleições na Colômbia: Quem é Iván Cepeda, o candidato do presidente Petro

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Eleições na Colômbia: Quem é Iván Cepeda, o candidato do presidente Petro

Na tumultuada campanha eleitoral da Colômbia, o senador Iván Cepeda não era considerado o favorito da esquerda até o final de 2025; ele não era o candidato do establishment para 2026.

Mas, desde que venceu as primárias de seu partido, ele dominou a campanha, inclusive em seus próprios termos: muitos eventos públicos, poucas entrevistas e nenhum debate. Ele é o candidato a ser batido.

Como ele cresceu? Houve um ponto de virada que impulsionou esse político, estranhamente avesso a controvérsias em um país onde elas sobram: o caso contra Álvaro Uribe.

Em julho de 2025, quando um juiz declarou o ex-presidente culpado de fraude processual e obstrução da justiça (ele foi absolvido posteriormente), Cepeda, que foi tanto vítima quanto testemunha naquele julgamento, tornou-se o principal candidato à Presidência.

Afinal, quem é Cepeda, o que ele propõe e por que ele poderia ser o sucessor de Gustavo Petro?

Filho de líder assassinado e político de esquerda

Cepeda tem 63 anos: nasceu em 24 de outubro de 1962, em Bogotá. É senador pelo Pacto Histórico, partido governista, e acaba de vencer as primárias internas do partido para ser o candidato à presidência em 2026.

É filho de Manuel Cepeda Vargas, deputado da União Patriótica (partido que surgiu como braço político das FARC e do Partido Comunista após os acordos do grupo guerrilheiro com o governo em 1984), assassinado em 1994, e de Yira Castro, líder comunista e ex-vereadora de Bogotá, falecida em 1981.

A morte de Cepeda Vargas foi um dos eventos reconhecidos pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2023 como o extermínio de um movimento político.

Desde então, Iván Cepeda exibiu seu caráter estoico como líder de esquerda: viralizaram imagens de um jovem Cepeda, entrevistado na rua pouco depois de saber da morte do pai, a caminho da universidade. Essa tem sido a marca registrada do senador: uma voz calma que, de sua perspectiva ideológica, faz um chamado constante por justiça.

Cepeda estudou Filosofia na Universidade de São Clemente de Ohrid, em Sófia, Bulgária, e se especializou em direito internacional humanitário na Universidade Católica de Lyon, na França.


Colombian presidential candidate for the political party Pacto Historico, Ivan Cepeda takes part during the result reception event of the political party Pacto Historico during the congressional elections in Colombia, March 8, 2026 in Bogota, Colombia. (Photo by: Luisa Borja Luna/Long Visual Press/Universal ImagesGroup via Getty Images)
Colombian presidential candidate for the political party Pacto Historico, Ivan Cepeda takes part during the result reception event of the political party Pacto Historico during the congressional elections in Colombia, March 8, 2026 in Bogota, Colombia. (Photo by: Luisa Borja Luna/Long Visual Press/Universal ImagesGroup via Getty Images) • Luisa Borja Luna/Long Visual Press/Universal ImagesGroup via Getty Images

É casado com Blanca del Pilar Rueda, funcionária da JEP (Jurisdição Especial para a Paz); o casal tem dois filhos.

A trajetória política de Cepeda reflete seu ativismo em um país hostil. Ele foi exilado na Europa entre 1998 e 2004 após receber ameaças por denunciar ligações entre políticos e paramilitares.

Em 2003, fundou o Movimento Nacional das Vítimas de Crimes de Estado. Em 2010, foi eleito para a Câmara dos Representantes por Bogotá pelo partido Polo Democrático, do qual Gustavo Petro também era membro. Desde 2014, é senador, reeleito em 2018 e 2022, desta vez representando o Pacto Histórico, partido que era a coalizão de grupos de esquerda que levou Petro ao poder em 2022.

No Congresso, Cepeda atuou como copresidente da Comissão de Paz e como membro da Segunda Comissão do Senado. Ele facilitou o processo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC. Também participou de diálogos com o ELN (Exército de Libertação Nacional) e colaborou em iniciativas de aproximação com o Clã do Golfo, como parte da política de “paz total” de Petro.

Em sua atuação legislativa, Cepeda denunciou publicamente casos de parapolítica e ligações entre empresários e paramilitares.

O caso Uribe e a candidatura do Pacto Histórico

Em 2012, o ex-presidente Álvaro Uribe – do extremo oposto do espectro político e o maior adversário de Cepeda – o acusou de suposta obstrução da justiça.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal arquivou o caso contra Cepeda por falta de provas suficientes e abriu um inquérito contra Uribe pelos mesmos crimes.

Uribe passou de acusador a réu, depois a culpado em 2015 e, finalmente, absolvido: há apenas uma semana, o Tribunal Superior de Bogotá anulou a sentença inicial de 12 anos de prisão domiciliar contra Uribe Vélez.

Mas esse caso deu notoriedade a Cepeda na preparação para as eleições de 2026: embora ele não tenha começado como pré-candidato, a condenação de Uribe lhe deu exposição na mídia e lançou um movimento que o levou a concorrer à nomeação.


O candidato à Presidência da Colômbia, Iván Cepeda Castro, durante um comício do Polo Democrático na sede da UGT, em 7 de janeiro de 2026, em Madri, Espanha.
O candidato à Presidência da Colômbia, Iván Cepeda Castro, durante um comício do Polo Democrático na sede da UGT, em 7 de janeiro de 2026, em Madri, Espanha. • Carlos Lujan/Europa Press via Getty Images

Quando as campanhas dos pré-candidatos começaram, o governo considerava Gustavo Bolívar, ex-diretor do Departamento Administrativo para a Prosperidade Social e aliado próximo de Petro, e o ex-prefeito de Medellín, Daniel Quintero, como os candidatos mais prováveis.

No entanto, disputas internas na esquerda, problemas com o Conselho Nacional Eleitoral em relação às primárias e as exigências da campanha acabaram levando Cepeda a angariar apoio de diversos setores.

Ele participou da consulta interpartidária da Frente Ampla em março de 2026 para definir um único candidato de esquerda, mas, após o sucesso da consulta (mais de 2 milhões de votos em uma eleição não simultânea, de um único grupo político e não concomitante a outro nacional), ele já está sendo considerado o candidato praticamente definitivo.

O que Cepeda propõe?

Cepeda é um líder que se diferencia de muitos políticos de esquerda na Colômbia por sua postura discreta, sua personalidade calma e sua adesão a princípios ideológicos, em vez da lógica clientelista das operações políticas no país. Devido à sua trajetória como membro da Juventude Comunista, ele é visto como parte da ala radical da esquerda colombiana.

Seu programa enfatiza a continuidade da “paz total” – o modelo de negociação de Petro com grupos criminosos, fortemente criticado pelos opositores –, a reconciliação nacional e a defesa dos direitos humanos.

Em seus discursos de campanha, Iván Cepeda propôs o fortalecimento da proteção dos direitos humanos contra a violência e a estigmatização.

Em assuntos internacionais, ele defende uma política externa independente, com ênfase no reconhecimento do Estado palestino, na integração latino-americana, na defesa dos migrantes e no abandono do modelo proibicionista de drogas.

Na frente social, ele fala de uma “revolução agrária” e de uma economia popular que redistribui a riqueza por meio de compras públicas orientadas para a comunidade. E na frente política, ele promove uma “ revolução democrática ” — em suas palavras, “pacífica e profunda” — que consolidará as mudanças sociais do governo atual e as tornará irreversíveis.

Sua companheira de chapa para vice-presidente é Aida Quilcué, líder indígena e senadora.

Ele pode vencer?

Será que ele conseguirá vencer em 2026 com esse plano de governo? Sem dúvida, o sucesso das primárias do Pacto Histórico, em termos de participação eleitoral, juntamente com a força do seu partido nas eleições legislativas e o fracasso das primárias da esquerda em março — das quais ele não participou — são fatores que o colocaram em uma posição privilegiada, não apenas dentro do espectro da esquerda, mas em toda a campanha.

Ele entra no primeiro turno como o candidato a ser batido e tem aproveitado essa vantagem ao longo dos meses, controlando sua exposição na mídia com poucas entrevistas e sem participação em debates, uma estratégia que tem sido bastante criticada.

O favoritismo é tamanho que sua campanha tem usado a narrativa de que ele poderia vencer diretamente no primeiro turno, algo que as pesquisas não comprovam.


O candidato à Presidência da Colômbia, Iván Cepeda Castro, concede uma entrevista coletiva na sede da UGT, em 7 de janeiro de 2026, em Madri, Espanha.
O candidato à Presidência da Colômbia, Iván Cepeda Castro, concede uma entrevista coletiva na sede da UGT, em 7 de janeiro de 2026, em Madri, Espanha. • Carlos Lujan/Europa Press via Getty Image

Ele é o candidato da esquerda e do governo, tendo conquistado o apoio de outros candidatos que também estarão na cédula (Luis Guillermo Murillo, Clara López e Carlos Caicedo).

Ele efetivamente marginalizou Roy Barreras – o político tradicional camaleônico que venceu as primárias interpartidárias em março – e se posicionou contra um centro apático e uma direita dividida entre duas opções.

Cepeda é o candidato de Petro, cujo mandato termina com relativa popularidade e o que analistas e rivais consideram seu evidente envolvimento na campanha em favor de seu candidato.

Mas Cepeda é considerado um político mais dogmático, embora seus anos no Congresso possam lhe conferir a habilidade política necessária para forjar consensos.

Petro chegou ao poder em 2022 com a bandeira da mudança, como o primeiro presidente de esquerda na história moderna da Colômbia, mas precisou buscar apoio de políticos e partidos tradicionais, e seu primeiro gabinete (dentre os muitos — e efêmeros — que formou) foi a manifestação de um acordo nacional e burocrático entre políticos de diferentes posições.

Para vencer, Cepeda talvez precise conquistar eleitores de centro ou mesmo aqueles indiferentes ou desiludidos com a direita e os partidos tradicionais; contudo, sua campanha sempre atraiu a base fiel do Pacto Histórico.

Por outro lado, embora seja o candidato do governo, alguns eleitores podem se sentir desencorajados pela administração errática de Petro, pelas fortes críticas que recebeu e por sua incapacidade de implementar as mudanças prometidas.

Cepeda não é um líder carismático como Petro, e representa a ala esquerda que a direita considera fácil de condenar.

Por essa razão, o contexto atual na região e no mundo é uma faca de dois gumes: Cepeda teria que lidar com um Donald Trump intransigente, propenso a impor sanções econômicas, e a associação da esquerda com o narcotráfico. Os candidatos de direita na Colômbia têm sido bastante vocais em suas críticas ao governo e seus apoiadores pela postura branda em relação a Nicolás Maduro e pelas disputas diplomáticas com os Estados Unidos.

E o fator segurança na Colômbia continua sendo um campo de batalha para a direita: a política de “paz total” de Petro — na qual Cepeda teve um papel fundamental — não alcançou resultados tangíveis e, pelo contrário, gerou muita oposição nacional e internacional.

Herdar e aprofundar essa perspectiva pode não render votos a Cepeda se ele chegar ao segundo turno e tiver que convencer eleitores de fora do seu partido.