Hantavírus no Brasil: entenda se há riscos de uma nova pandemia
A confirmação de dois casos de hantavírus no Brasil nesta sexta-feira (8) acendeu um alerta sobre a possibilidade de haver uma nova pandemia, como aconteceu com a Covid-19 no início da década. Atualmente, existem 11 casos nacionalmente em investigação, um número elevado para uma doença que já causou óbitos em outras regiões do mundo nas últimas semanas.
O alerta surgiu após os casos registrados em um navio de cruzeiro que viajava da Argentina para Cabo Verde no início de maio. A Organização Mundial de Saúde tem feito avaliações sobre as contaminações e os desdobramentos dos sintomas.
Apesar dos casos gerarem preocupação, existem muitas diferenças entre o hantavírus e o coronavírus. “O hantavírus e o coronavírus são vírus completamente diferentes. Eles pertencem a gênero, ordem e famílias diferentes e possuem estrutura molecular diferentes entre si. A semelhança estrutural que existe entre os dois é que ambos são vírus do tipo RNA”, afirmou Lilian Ávilla, infectologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
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Sabrina Soares, infectologista do Hospital Quali Ipanema (RJ), diferenciou os dois vírus. “O hantavírus causa a hantavirose, uma doença menos frequente, porém potencialmente muito grave, principalmente por provocar comprometimento pulmonar agudo e insuficiência respiratória rápida”, avaliou.
A transmissão da hantavirose acontece através do contato de roedores e humanos. “Os hantavírus tradicionalmente se espalham através do contato com secreções e com excreções de roedores que estejam infectados por esses vírus”, detalhou Ávilla.
“Normalmente as fezes secas e as secreções como saliva e até mesmo urina podem aerossolizar (espalhar) os vírions (partícula viral) que ficam ali naquele material, e a aerossolização dessas partículas é o que permite que as pessoas se infectem através da via respiratória, mas também há registro de que pode haver a transmissão de uma pessoa entre a outra quando há um contato muito próximo entre elas, havendo uma delas infectada”, explicou.
Mesmo que haja preocupação, o risco de haver uma pandemia é muito baixo para as especialistas. “Por enquanto, a avaliação da Organização Mundial de Saúde é que o risco de que o hantavírus cause uma nova pandemia é muito baixo. Todos os cuidados têm sido tomados para que os casos que foram detectados até o momento sejam isolados para que não ocorra o risco de transmitir para as outras pessoas”, declarou Lilian.
Para Sabrina, o risco é baixo, mas é necessário se atentar às mutações dos vírus. “Hoje, esse risco é considerado baixo. Embora a cepa andina tenha demonstrado possibilidade de transmissão entre pessoas em situações específicas e contato muito próximo, ela não apresenta, até o momento, a mesma capacidade de disseminação ampla observada no coronavírus”, declarou.
Ela alertou: “No entanto, todo vírus com potencial de mutação e transmissão entre humanos merece vigilância epidemiológica constante. O monitoramento é importante justamente para identificar precocemente qualquer mudança no comportamento do vírus”.
Sintomas
O hantavírus pode provocar uma série de sintomas graves dependendo da infecção causada nos pacientes. Sabrina Soares explicou que existe uma resposta inflamatória muito intensa, especialmente nos pulmões do indivíduo contaminado.
“O vírus aumenta a permeabilidade dos vasos sanguíneos, levando ao extravasamento de líquidos para o tecido pulmonar e causando insuficiência respiratória aguda em pouco tempo. Por isso, muitos pacientes evoluem rapidamente após o início dos sintomas, com piora importante em questão de horas ou poucos dias, diferentemente de muitos casos de coronavírus que costumavam ter progressão mais gradual”, detalhou.
Lilian Ávilla relatou uma espécie de “choque” que acontece no corpo do paciente que foi infectado pelo hantavírus. “A partir dos dados que nós temos atualmente, não é possível dizer que o hantavírus age de uma forma mais rápida que o coronavírus no corpo humano. A grande diferença entre os dois é que o hantavírus, especialmente a cepa andina, causa uma síndrome cardiopulmonar em até 50% das pessoas que são infectadas, e essa síndrome cardiopulmonar é muito grave e causa choque”, explicou.
Ela continuou: “Quando nós falamos que uma doença causa choque, significa que ela causou alterações no organismo que fazem com que aquele corpo não consegue manter de forma adequada a própria pressão. Então essas pessoas que evoluem com essa forma grave da doença, precisam ter acesso a Unidade de Terapia Intensiva e elas costumam receber medicações que costumam estabilizar a pressão, além de outros cuidados intensivos”.
Os casos costumam escalonar dentro da UTI. “Muitas vezes, se não todas, costuma ser necessário a intubação, que é o procedimento necessário para que o paciente receba ventilação mecânica”.
Prevenção
Apesar de não ter um contágio muito previsível, é possível se prevenir de contrair a hantavirose. Segundo Soares, as medidas podem envolver:
- manter locais fechados, depósitos e alimentos protegidos contra ratos;
- evitar acumular lixo e entulho;
- ventilar ambientes fechados antes da limpeza;
- não varrer locais com sinais de roedores, para evitar levantar partículas contaminadas;
- fazer limpeza com água sanitária ou desinfetante adequado;
- utilizar máscaras e luvas em locais de risco, especialmente em áreas rurais.
Lilian Ávilla, por sua vez, apontou que a higienização das mãos também pode ser uma boa medida para evitar o contágio. “Outra maneira também é a higienização frequente das mãos, que nós já usamos para prevenir outras doenças infecciosas em geral, e a limpeza de superfícies”, explicou.
“E nós sabemos também que nessa situação específica relacionada ao hantavírus da cepa andina, como existe o risco da infecção entre pessoas, evitar contato prolongado com pessoas que tenham sido expostas ao vírus ou que estejam infectadas com o vírus é algo fundamental também”, concluiu.
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