Massacre no São José: o jornalismo covarde que culpa quem morreu e protege omissão familiar

A tragédia ocorrida no Instituto São José, em Rio Branco, ganha contornos ainda mais sombrios quando observamos a tentativa de manipulação da opinião pública por setores da imprensa local. Em vez de uma apuração rigorosa sobre as origens da violência e as falhas de custódia, assistimos a um espetáculo de desinformação: a transformação de uma vítima fatal, a inspetora Raquel Sales Feitosa, em culpada por sua própria execução.

O Portal ac24 horas e a TV5, afiliada da Rede Bandeirantes no Acre, atribuem a Dilvan Braga, viúvo de uma inspetora morta, um alerta que teria sido dado pelo padrasto do atirador de 13 anos, o advogado Ruhan Mesquita de Amorim. O tutor e responsável direto do menino, assegura a imprensa, teria ciência das intenções do menor. As reportagens, cujo teor é desconhecido da polícia, o advogado teria alertado o viúvo que, por sua vez, comunicou à esposa em vida de que o jovem “tomaria providências de sua própria maneira” caso um suposto bullying contra ele não fosse interrompido. Esse dado não apenas revela uma ameaça prévia, mas expõe uma omissão familiar catastrófica.

O Alvo Errado: a morta não se defende

É alarmante que veículos como o portal AC24horas e a TV5 tenham optado por uma narrativa que transfere a responsabilidade para a servidora assassinada. Ao sugerir que a tragédia ocorreu porque a inspetora “não levou a sério” o alerta, a imprensa desvia o foco do óbvio: a responsabilidade primária sobre um menor de idade e o acesso a armamento pesado cabe aos seus guardiões legais, não à escola.

A tentativa de blindar o entorno do atirador, supostamente composto por figuras de influência política e laços com forças de segurança no Acre, é um tapa na face da sociedade acreana. A inversão de valores é clara: tenta-se manchar a memória de quem morreu no exercício do dever para proteger quem, por dever de ofício e de sangue, deveria ter impedido o acesso do jovem à arma do crime.


Perguntas que Exigem Respostas

Para que a justiça não seja asfixiada por conveniências editoriais, a Polícia Civil e o Ministério Público precisam responder a questões fundamentais que a cobertura parcial tenta ignorar:

  1. A Origem da Arma: Em nome de quem está registrada a pistola utilizada no massacre? Como um adolescente de 13 anos teve acesso facilitado a ela?

  2. A Omissão Familiar: Se o padrasto identificou um risco tão iminente a ponto de “alertar” a escola, por que não agiu dentro de casa? Por que as medidas de contenção familiar falharam tão drasticamente?

  3. A Credibilidade da Narrativa: Por que parte da imprensa priorizou o depoimento de uma testemunha para “culpar” uma vítima falecida, sem contextualizar a responsabilidade legal dos responsáveis pelo menor?

  4. Influência Política: Até que ponto os laços familiares do padrasto com figuras políticas e policiais estão moldando o tom da investigação e da cobertura jornalística?

Conclusão

O jornalismo tem o dever de fiscalizar o poder, não de servir como seu relações-públicas. Atribuir culpa a Raquel Sales Feitosa é uma covardia intelectual e moral. A sociedade de Rio Branco não busca bodes expiatórios; busca justiça. E a justiça começa por responsabilizar quem detinha o pátrio poder e quem permitiu que o ódio se armasse sob o próprio teto.

O caso do Instituto São José não pode ser encerrado com o silenciamento das vítimas. É preciso apurar quem sabia, quem falhou e, acima de tudo, quem está tentando esconder a verdade sob o tapete da influência política.

Nota da redação

A coordenadora administrativa do Instituto São José não atendeu ás chamadas da reportagem, tampouco respondeu às nossas mensagens. A intenção de nossos repórteres é confirmar se a escola, de fato, foi alertada sobre o perigo de um massacre ou a narrativa do viúvo não deve ser considerada. Já o delegado Martin Ressel, o número 2 da Polícia Civil e responsável pelo inquérito, encerrou o diálogo via Wharsaap com nossa reportagem  ao saber do assunto, como mostra o print acima. O espaço segue aberto para esclarecimentos pelas autoridades.