Rejeitos nucleares: enterrar valor ou transformá-lo em estratégia
A discussão sobre energia nuclear no Brasil ainda carrega ruídos históricos que pouco dialogam com a realidade técnica atual. Poucas áreas evidenciam tanto esse descompasso quanto a gestão de rejeitos radioativos e do combustível usado, frequentemente rotulados como “lixo nuclear”, quando, na prática, representam um dos ativos mais sofisticados e estratégicos do setor energético contemporâneo.
O ponto central não é mais técnico. O mundo já domina, com elevado grau de maturidade, as soluções para o gerenciamento seguro desses materiais. O que está em jogo hoje é uma decisão de natureza estratégica: como integrar essa agenda ao planejamento energético, industrial e tecnológico de longo prazo.
Existem dois caminhos possíveis. O primeiro é o ciclo aberto, modelo adotado atualmente pelo Brasil. Nele, o combustível usado é armazenado com segurança em sistemas projetados sob o princípio da defesa em profundidade, com múltiplas barreiras físicas e institucionais, monitoramento contínuo e estruturas capazes de resistir a eventos extremos. Trata-se de um modelo consolidado, seguro e amplamente utilizado.
O segundo é o ciclo fechado, adotado por países como França, Rússia, Japão e China. Nesse modelo, o combustível usado deixa de ser tratado como rejeito e passa a ser reinserido no ciclo produtivo por meio do reprocessamento. Cerca de 95% do material pode ser reaproveitado, dando origem a novos combustíveis, como o MOX, e reduzindo significativamente o volume e a toxicidade dos rejeitos de alta atividade.
A diferença entre esses modelos é menos técnica e mais estratégica. No ciclo aberto, o país armazena potencial energético. No ciclo fechado, ele transforma esse potencial em ativo produtivo, ampliando sua autonomia e capturando valor ao longo da cadeia.
Essa decisão ganha relevância em um contexto global marcado por três forças simultâneas: a crescente demanda por eletricidade, a pressão por descarbonização e a necessidade de segurança energética. A eletrificação acelerada, impulsionada por data centers, inteligência artificial, mobilidade elétrica e novas cadeias industriais, exige fontes firmes, confiáveis e de baixa emissão. Por isso, desperdiçar energia potencial deixa de ser apenas uma escolha técnica e passa a ser uma ineficiência estratégica.
O combustível usado ainda retém cerca de 90% de seu conteúdo energético original. Ignorar esse dado equivale, do ponto de vista econômico, a descartar um recurso valioso em nome de uma percepção ultrapassada.
Ao mesmo tempo, é fundamental qualificar o debate público. A gestão de rejeitos radioativos está entre as atividades mais rigorosamente reguladas do setor energético global. Não se trata de um processo improvisado, mas de um sistema estruturado que envolve classificação detalhada dos materiais, critérios específicos para acondicionamento, transporte sob padrões internacionais harmonizados, rastreabilidade, controle institucional e planejamento de longo prazo.
Mesmo etapas frequentemente percebidas como críticas, como o transporte de materiais radioativos, operam sob um arcabouço técnico altamente sofisticado, que combina engenharia robusta, protocolos internacionais e regulação rigorosa. A segurança não depende de uma única medida, mas de camadas independentes de proteção que funcionam de forma integrada.
Além disso, o debate evoluiu. A segurança nuclear contemporânea já não se limita à prevenção de acidentes. Ela incorpora, de forma estruturada, a dimensão da proteção física, considerando riscos deliberados, ameaças à infraestrutura crítica e a necessidade de resiliência sistêmica. Isso se traduz em abordagens baseadas em risco, planejamento antecipado, avaliação de vulnerabilidades e protocolos de resposta coordenados.
Outro ponto essencial é reconhecer que nem todo rejeito radioativo é igual. Há diferentes categorias, de baixa, média e alta atividade, cada uma com soluções técnicas específicas, desde armazenamento em superfície até depósitos geológicos profundos. Alguns países, como a Finlândia, avançaram na construção de repositórios definitivos capazes de garantir isolamento seguro por centenas de milhares de anos, demonstrando que a questão da disposição final já possui respostas tecnicamente viáveis.
O Brasil, por sua vez, possui uma base sólida. Opera sistemas de armazenamento alinhados às melhores práticas internacionais, mantém compromissos robustos de salvaguardas e dispõe de uma estrutura institucional que evolui para maior clareza regulatória e separação de funções. O país também detém uma das maiores reservas de urânio do mundo e domina etapas relevantes do ciclo do combustível nuclear.
Essa combinação coloca o Brasil em uma posição singular: como usuário de tecnologia, e como potencial protagonista em uma cadeia global que envolve energia, inovação e segurança estratégica.
O desafio agora não é resolver um problema técnico, esse já foi equacionado. O desafio é estruturar uma visão de longo prazo que integre gestão de rejeitos radioativos, política energética, desenvolvimento industrial e soberania tecnológica.
Isso implica avançar em temas como governança institucional, financiamento de soluções de longo prazo, integração entre ciclo de vida das instalações e planejamento desde a concepção dos empreendimentos. Implica também reconhecer que segurança e desenvolvimento não são agendas concorrentes, mas complementares, e que um ambiente regulatório sólido é condição para o avanço sustentável do setor.
No fim, a pergunta que o Brasil precisa responder é simples, mas decisiva: continuará tratando rejeitos radioativos como um passivo a ser isolado ou passará a reconhecê-los como um recurso a ser estrategicamente gerido? Mais do que uma escolha tecnológica, trata-se de uma opção estratégica para o País.
* Celso Cunha é presidente da Abdan (Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares) e Ailton Fernando Dias é diretor de Instalações Nucleares e Salvaguardas da ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear)