O plantio da nova safra de trigo brasileira alcançou 41,1% da área prevista, segundo o monitoramento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, em um momento em que produtores e agentes da cadeia acompanham com preocupação a redução da área cultivada, os custos elevados de produção e os possíveis impactos climáticos associados ao El Niño.
Segundo a Conab, as lavouras já implantadas apresentam desenvolvimento satisfatório em estados como Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. No Paraná, as temperaturas mais baixas e as chuvas recentes favoreceram o estabelecimento das áreas semeadas, enquanto no Rio Grande do Sul o plantio avança em ritmo inicial, com boas condições para as lavouras emergidas.
Entretanto, o cenário para a nova temporada é marcado por cautela. De acordo com Nelson Montagna, gerente de suprimento de trigo do Moinho Anaconda, o cereal é particularmente sensível às condições climáticas.
“O trigo em geral é um grão especialmente sensível ao clima. Com um mega El Niño esperado, vemos uma situação de bastante risco aqui para o hemisfério sul”, afirmou. Além das incertezas climáticas, Montagna destacou que a intenção de plantio é menor em importantes estados produtores, destacando o Paraná.
Menor investimento tecnológico
A Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) observa tendência de substituição parcial do trigo por outras culturas de inverno, como canola, além da adoção de sistemas alternativos de produção. Há ainda indícios de redução do nível tecnológico empregado nas lavouras, com maior utilização de sementes próprias e menor procura por sementes certificadas.
Montagna acrescenta que o aumento dos custos de produção tem pressionado a rentabilidade dos agricultores. “A outra preocupação que vem é o custo de plantio, fertilizante, defensivos. E os preços estabilizaram num patamar que o produtor não considera muito positivo”.
Há ainda a preocupação de que, diante do aumento dos custos de produção, os produtores não realizem os investimentos necessários na safra. “Com produtor com pressão de custo alto e de preço baixo [da commodity], ele vai plantar quase por obrigação, sem o trato esperado”, disse Montagna.
Assim, há a expectativa de que exista uma piora na qualidade do trigo produzido nacionalmente, e uma dependência de importação de trigo com maior concentração de proteína, utilizado para a fabricação de farinhas para panificação e massas frescas.
Produção menor e dependência das importações
Apesar das condições favoráveis observadas em grande parte das regiões produtoras até o momento, o setor trabalha com projeções de uma safra menor em 2026/27.
Para o Brasil, o USDA projeta produção de 6,7 milhões de toneladas e importações de 7,2 milhões de toneladas de trigo. A Safras & Mercado estima 6,16 milhões de toneladas de produção brasileira, citando a menor intenção de plantio e as margens reduzidas dos produtores.
A TF Consultoria Agroeconômica trabalha com estimativas semelhantes, de produção próxima a 6,5 milhões de toneladas e importações de 6,75 milhões de toneladas.
“Com a provável grande redução da produção, por área e menor uso de tecnologia, deverá aumentar as importações e, como consequência, nivelar os preços internos com a paridade internacional”, afirmou o analista Luiz Pacheco, da TF Consultoria Agroeconômica.
Com as estimativas de mercado entre 6,1 milhões e 6,7 milhões de toneladas, o volume será insuficiente para atender à demanda interna, estimada em cerca de 13 milhões de toneladas.
A Argentina segue como principal fornecedora do cereal para os moinhos brasileiros, mas problemas de qualidade observados na safra argentina colhida em 2025 têm levado parte do setor a buscar alternativas.
Segundo Montagna, a qualidade do trigo argentino ficou abaixo das expectativas da indústria moageira. “A safra do ano passado ficou muito abaixo da expectativa de qualidade na Argentina. Houve um pouco de lixiviação. A produtividade foi muito maior, mas faltou ‘comida’ para o grão, principalmente no teor de proteína”, afirmou.
Embora exista a possibilidade de diversificação de origens, o custo logístico limita essa estratégia. “O frete é proibitivo. A primeira opção teria sido o trigo americano, mas está muito caro. Tem gente testando o trigo russo. Na região Sul tentaram mais o trigo uruguaio e paraguaio”, disse.
Mercado interno enfrenta margens apertadas
Enquanto os custos de produção e importação avançam, os moinhos relatam dificuldade para repassar aumentos ao consumidor final.
Montagna afirma que o setor opera com margens reduzidas e mercado sensível aos preços. “Vai ser um ano de margens apertadas. O poder de compra [do consumidor] está mais baixo, e o mercado muito sensível.”
Segundo Pacheco, a forte competição no segmento dificulta aumentos de preços. “Recebemos muitas notícias de moinhos reduzindo o preço da farinha ou mantendo o preço do mês anterior, o que impede o repasse dos custos de frete e embalagens deste mês e dificulta o aumento nos preços do grão.”
As ofertas de trigo argentino nacionalizado nos portos brasileiros estão ao redor de US$ 295 por tonelada, refletindo a valorização observada tanto no frete marítimo quanto nos preços FOB na origem argentina nos últimos meses.
Janela comercial desfavorável
Além dos desafios internos, o setor aponta uma característica estrutural do mercado brasileiro que limita o potencial de valorização do cereal.
Segundo Montagna, o calendário de colheita nacional coincide com o período de entrada da safra do Hemisfério Norte, quando grandes volumes chegam ao mercado internacional.
“O Brasil tem uma situação muito particular de safras que é desfavorável. Noventa por cento do trigo do mundo é colhido de julho em diante. Quando vamos colher, está entrando a safra mundial, e isso faz pressão de preço para baixo”, explicou.
O executivo observa que a janela de comercialização também é estreita, especialmente para os produtores do Rio Grande do Sul, cuja colheita ocorre mais tarde e coincide com a entrada da safra argentina no mercado.