Não existe governo forte quando o governante abre mão da autoridade que lhe foi conferida pelas urnas. A história da administração pública mostra que as maiores crises não começam, necessariamente, do lado de fora dos palácios. Muitas vezes, nascem dentro deles, quando interesses particulares passam a disputar espaço com o interesse coletivo.
É nesse contexto que devem ser compreendidas as mudanças promovidas pela governadora Mailza Assis na estrutura do Governo do Acre. Não é juízo de valor, mas medida necessária (como ela própria disse), para estancar situações que afetam a governança ante o chamado poder paralelo, alimentado por meia dúzia há anos.
Governar não é distribuir cargos para agradar aliados nem manter pessoas em funções estratégicas para preservar aparências. Governar é decidir. É assumir o desgaste das decisões difíceis. Mailza não pode responder, sozinha, pelo sucesso ou pelo fracasso de uma administração. Mas a ela cabe se antecipar ao caos quando envia um recado inequívoco: ninguém ocupa cargo por direito adquirido. A permanência no governo depende, antes de tudo, da confiança política, da responsabilidade administrativa e do compromisso com o interesse público.
Segundo apurações jornalísticas, documentos, relatórios técnicos, informações internas e outros elementos passaram a subsidiar uma reavaliação da estrutura administrativa. Caso os fatos em análise venham a ser confirmados pelas instâncias competentes, ficará demonstrado que as mudanças não decorreram de conveniências políticas, mas da necessidade de proteger a saúde financeira do Estado e fortalecer os mecanismos de controle da gestão.
É preciso deixar algo claro. As exonerações e substituições não significam, por si só, uma condenação à competência técnica daqueles que deixam o governo. Muitos são servidores e profissionais reconhecidos, com relevantes contribuições à administração pública. Competência, entretanto, não elimina a prerrogativa do chefe do Executivo de reorganizar sua equipe sempre que entender que isso atende ao interesse público. Mas quem permite se contaminar pelo desleixo – e pela influência de seu entorno – não faz jus ao cargo.
Quem governa precisa ter liberdade para montar sua equipe. Essa autonomia não é um privilégio pessoal; é um princípio da boa administração. A própria manifestação pública do ex-governador Gladson Cameli em defesa da autonomia da governadora reforça esse entendimento: quem responde pelo governo deve ter assegurado o direito de nomear e exonerar seus auxiliares sem que essa prerrogativa seja submetida a pressões políticas. E as razões para tal nem sempre são expostas, muito embora, nesse caso específico, sejam justificáveis.
Mailza chega a esse momento trazendo uma característica que marcou sua trajetória. À frente do programa Juntos pelo Acre, consolidou uma imagem de gestora próxima das comunidades, defensora da inclusão social, da presença efetiva do Estado junto às famílias mais vulneráveis e contra desmandos. Percorreu o Acre, ouviu demandas e fez da política social uma marca de sua atuação.
Agora, porém, enfrenta outro desafio: demonstrar que sensibilidade social também exige rigor administrativo. Não existe inclusão verdadeira quando o dinheiro público deixa de cumprir sua finalidade. E ela sabe disso.
Cada recurso desperdiçado representa menos atendimento na saúde, menos investimentos na educação, menos infraestrutura e menos oportunidades para quem mais depende do Estado.
É justamente nesse ponto que se mede a coragem de um governante. Combater eventuais desmandos, corrigir distorções e reorganizar estruturas nunca rende aplausos unânimes. Ao contrário. Toda tentativa de moralizar a administração pública provoca resistências, desagrada interesses estabelecidos e gera desgaste político.
Mas governar nunca foi um exercício de popularidade permanente. É um exercício de responsabilidade.
Se as apurações em curso confirmarem irregularidades, caberá aos órgãos competentes responsabilizar quem eventualmente tenha atentado contra o patrimônio público. Se não confirmarem, que isso também seja reconhecido com a mesma transparência. O que não pode existir é espaço para omissão.
A sociedade acreana não espera um governo acomodado. Espera um governo capaz de proteger os cofres públicos, fortalecer as instituições e assegurar que cada real arrecadado seja convertido em benefício da população.
No fim das contas, governos passam. O Estado permanece. E a maior demonstração de liderança de um governante não está em preservar grupos de influência, mas em demonstrar que, acima de qualquer interesse político, prevalece o compromisso com a ética, a responsabilidade fiscal e o respeito ao dinheiro do contribuinte.

