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Antes tarde do que nunca

Ponte no Juruá, a maior do Acre, nasce com planejamento, uma prevenção que só virou prioridade após a tragédia em Sena Madureira

A notícia de que o DNIT mobilizou equipes para realizar levantamentos topográficos, estudos geológicos, ensaios de solo e análises sobre “terras caídas”, movimentação do leito do rio, balseiros e até pequenos sismos antes da construção da nova ponte entre Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves merece aplausos. Mas também exige uma pergunta que continua sem resposta convincente.

Por que esse mesmo rigor não foi tratado como prioridade absoluta antes da construção da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira?

A impressão que fica é desconfortável: parece que foi preciso uma ponte desabar, pessoas se ferirem, milhões de reais em patrimônio público serem perdidos e uma cidade inteira sofrer consequências para que o poder público compreendesse que rios amazônicos não aceitam improvisos.

Na Amazônia, construir sobre um rio nunca foi apenas erguer pilares e lançar vigas. Significa enfrentar um ambiente dinâmico, onde o solo muda, as margens cedem, o curso das águas se transforma e processos erosivos podem comprometer estruturas monumentais. Isso não é novidade científica. É uma realidade conhecida há décadas por engenheiros, geólogos e por quem vive às margens desses rios.

Por isso, chama a atenção que agora o DNIT anuncie, como elemento central do projeto, exatamente aquilo que deveria ser pressuposto em qualquer grande obra dessa natureza: conhecer profundamente o comportamento do terreno antes de definir a engenharia da estrutura.

A tragédia da Ponte Frei Paolino Baldassari não produziu apenas prejuízos financeiros. Ela isolou comunidades, dificultou o transporte de pacientes, estudantes e trabalhadores, afetou a economia local e abalou a confiança da população na capacidade do Estado de entregar obras duradouras.

Esse episódio precisa representar um divisor de águas.

Não basta que a futura ponte do Juruá seja segura. É necessário que todas as futuras obras públicas de grande porte passem a ser precedidas do mesmo nível de exigência técnica. Estudos geológicos, hidrológicos, topográficos e de estabilidade das margens não podem ser tratados como etapas burocráticas ou meros anexos de um projeto. Devem ser a base sobre a qual qualquer investimento multimilionário é concebido.

Ao mesmo tempo, a sociedade tem o direito de cobrar transparência. O caso da Ponte Frei Paolino Baldassari precisa continuar sendo analisado com profundidade para que se compreenda, de forma técnica e independente, quais fatores contribuíram para o colapso da estrutura e quais lições institucionais precisam ser incorporadas. A pior resposta seria tratar o episódio apenas como uma fatalidade.

O Acre não pode aceitar que tragédias sejam o método de aperfeiçoamento da gestão pública.

Se hoje o Estado anuncia estudos sofisticados para evitar riscos futuros, isso é motivo de esperança. Mas também é um lembrete doloroso de que, em Sena Madureira, essa cultura de prevenção chegou tarde demais.

A engenharia pública deve aprender com seus erros. A administração pública também. Porque, quando uma ponte cai, não desaba apenas uma estrutura de concreto. Desaba a confiança da população de que o dinheiro público foi empregado com o cuidado e a responsabilidade que ela merece.

Esse editorial faz uma crítica contundente à gestão pública e à cultura de prevenção, mas evita afirmar como fato que inexistiram estudos ou que houve negligência específica na Ponte Frei Paolino Baldassari, já que essas são conclusões que dependem de apuração técnica e eventual responsabilização oficial. Isso mantém o texto firme, sem extrapolar o que está comprovado.

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REDAÇÃO

Autor da publicação.