Enquanto anúncios sedutores circulam livremente pela internet oferecendo salários que chegam a R$ 30 mil por mês, uma realidade muito mais dura espera brasileiros que aceitam lutar na guerra entre Ucrânia e Rússia. Contratos extensos, promessas de remuneração contestadas por combatentes, dificuldade para deixar o conflito e relatos de abandono no front compõem um cenário que está longe da propaganda exibida nas plataformas de recrutamento. E mais: ao invés de serem lotados em setores administrativos, como se promete, eles são levados direto ao front, como alvos da bala. Abaixo, a dinâmica de um golpe impiedoso e o exemplo de brasileiros que não morreram por sorte.
A reportagem investigativa do Portal O Seringal passou dias reunindo informações de fontes oficiais e relatos reservados de brasileiros que estiveram na guerra, além das orientações do Ministério das Relações Exteriores para entender como funciona o recrutamento de estrangeiros para um dos conflitos mais sangrentos da atualidade.
O último acreano a embarcar é Mário Jorge do Vale Costa, de 33 anos, de Cruzeiro do Sul, que serviu Batalhão de Engenharia de Construção (5º BEC), em Porto Velho (RO).
caminho da Ucrânia, ele postou nesta sexta-feira, em, São Paulo, após se despedir da mãe. Ele disse ter sido aprovado em processo seletivo, sob a orientação de um parente que já está no ambiente de guerra. Impressiona a declaração dele, dada na imprensa local, ao reconhecer que nada garante que ele volte para a sua família no Brasil. “Não existe uma certeza de volta, mas vou lutar para que eu volte com vida”, concluiu.
O resultado acende um sinal de alerta, principalmente no Acre.
Levantamento obtido pela reportagem aponta que oito acreanos, com idades entre 22 e 36 anos, tiveram seus passaportes carimbados neste ano com destino à Ucrânia, movimento que desperta preocupação diante da crescente procura de jovens por plataformas que oferecem vagas para integrar forças militares estrangeiras.
É importante destacar que o ato de viajar para outro país não significa, por si só, que essas pessoas tenham efetivamente ingressado em combate, e o Estado brasileiro não possui mecanismos para impedir que cidadãos maiores de idade viajem por decisão própria, desde que estejam em situação regular.
Da propaganda ao campo de batalha
Os anúncios encontrados na internet apresentam uma narrativa sedutora.
Prometem aventura.
Prometem propósito.
Prometem ajudar um país em guerra.
E, principalmente, prometem salários elevados.
Mas documentos de recrutamento e informações divulgadas por canais oficiais ligados às forças ucranianas indicam uma remuneração bastante diferente daquela anunciada em muitas redes sociais.
Segundo os valores divulgados oficialmente:
- treinamento: cerca de US$ 1.100 por mês;
- serviço ativo: aproximadamente US$ 2.600 mensais;
- adicional para atuação direta na linha de frente, condicionado ao tempo efetivo em combate.
Mesmo somando os adicionais previstos, o rendimento máximo depende de diversas condições operacionais e da efetiva permanência em combate. Não se trata, portanto, de um salário garantido de R$ 30 mil mensais para todos os recrutados.
Além disso, há diversos relatos públicos de brasileiros afirmando que pagamentos prometidos não foram integralmente recebidos ou sofreram atrasos, embora essas alegações não possam ser generalizadas para todos os casos.
O contrato que poucos leem
Outro aspecto pouco divulgado pelos recrutadores diz respeito aos contratos.
Relatos de combatentes brasileiros indicam que muitos assinam documentos extensos, redigidos em idioma estrangeiro, comprometendo-se por longos períodos de serviço.
Há também relatos de que a saída antecipada pode caracterizar deserção conforme a legislação aplicável ao país contratante, com consequências penais severas. A legislação e sua aplicação podem variar conforme o caso concreto, razão pela qual qualquer interessado deve buscar orientação jurídica especializada antes de assumir esse tipo de compromisso.
Na prática, diversos brasileiros relatam que só compreenderam a dimensão das obrigações assumidas depois de já estarem em território estrangeiro.
- Eric Ferreira Soares: Jovem de 23 anos de Castanhal (PA), foi capturado pelas forças russas após ser enviado à linha de frente. Ele apareceu em um vídeo chorando e pedindo perdão à mãe por ter voltado para o “inferno” da guerra.
- Prisão e Ilusão de Retaguarda: Diversos voluntários afirmam terem sido enganados com propostas para atuar apenas em serviços de apoio ou retaguarda segura, mas acabaram jogados em combates intensos.
- Abusos e Abandonos em Kiev: Grupos de brasileiros relataram ao UOL sofrerem pressão psicológica, retenção de passaportes, xenofobia e salários atrasados por parte de empresas e estruturas ligadas ao front, ficando sem dinheiro logo no primeiro mês.
- Baixas e Desaparecimentos: Dados indicam dezenas de mortes e desaparecimentos de cidadãos brasileiros que se arriscaram no conflito, gerando desespero nas famílias que ficam meses sem notícias.
A guerra não distingue nacionalidade
Outro ponto frequentemente ignorado nas propagandas é a realidade do campo de batalha.
Vídeos publicados por brasileiros mostram soldados enfrentando frio extremo, escassez de equipamentos, bombardeios constantes e enormes dificuldades logísticas.
Também existem relatos públicos de famílias denunciando desaparecimentos, mortes, abandono e dificuldades para obter informações sobre parentes que partiram para combater.
Embora esses relatos não representem necessariamente a experiência de todos os voluntários, revelam riscos concretos de um conflito armado de alta intensidade.
Mercenário ou voluntário?
Especialistas em direito internacional explicam que a situação jurídica de estrangeiros que combatem em guerras é complexa.
Dependendo das circunstâncias e do vínculo estabelecido, a proteção prevista pelas Convenções de Genebra pode variar. Em caso de captura, o tratamento jurídico dependerá do status reconhecido ao combatente conforme o direito internacional humanitário e a legislação do país envolvido.
Por isso, simplificações encontradas em anúncios na internet podem induzir candidatos ao erro.
O Itamaraty faz um alerta
O próprio Ministério das Relações Exteriores já prestou assistência consular a brasileiros e familiares envolvidos no conflito.
No entanto, a atuação do governo brasileiro possui limitações significativas em zonas de guerra, especialmente em locais onde há elevado risco à segurança e dificuldades operacionais.
Em situações de emergência envolvendo brasileiros no exterior, o Itamaraty mantém plantão consular permanente para casos de prisão, desaparecimento, violência, acidentes graves ou morte.
O alerta de O Seringal
O Portal O Seringal não questiona o direito individual de qualquer cidadão adulto tomar decisões sobre sua própria vida.
Mas considera ser dever do jornalismo revelar aquilo que muitas propagandas escondem.
Quando jovens desempregados são atraídos por promessas de salários extraordinários sem que recebam todas as informações sobre contratos, riscos, consequências jurídicas e a realidade do campo de batalha, existe um evidente interesse público em esclarecer os fatos.
Antes de embarcar rumo a uma guerra que já ceifou centenas de milhares de vidas, vale fazer algumas perguntas:
- O contrato foi integralmente compreendido?
- O salário prometido está oficialmente garantido?
- Quem responderá se o pagamento nunca chegar?
- Quem trará esse brasileiro de volta caso ele queira desistir?
- Vale trocar a própria vida por uma promessa feita em uma plataforma da internet?
A guerra termina para alguns.
Para outros, ela continua pelo resto da vida — seja pelas sequelas físicas, psicológicas ou pela impossibilidade de voltar para casa.
O primeiro combate, muitas vezes, começa muito antes da linha de frente: começa contra a desinformação.
Abaixo, o OSeringal disponibiliza lista de contatos do Itamaraty (Órgão do governo Federal que trata das relações exteriores, para consulta sobre o assunto.
contato do Itamaraty
Contato direto do Itamaraty – Plantão Consular 24h
Pra quem tá no Brasil e quer ajudar alguém lá fora:
– Telefone: +55 (61) 98260-0610
– E-mail: [email protected]
– Horário: Atende 24h só pra emergência: acidente grave, prisão, desaparecimento, tráfico de pessoas, violência, morte 37bfc7a5
Pra quem tá na Ucrânia:
– Embaixada do Brasil em Kiev
– Telefone geral: +380 443399861
– Setor Consular: +380 443399862
– Plantão emergências: +380 503845484
– E-mail consular: [email protected]
Se for pra alertar alguém que tá indo:
1. Mostra os relatos: Brasileiro lá tá denunciando promessas não cumpridas e tortura.
2. Contrato de 3 anos: Quem assina só sai depois de 6 meses. Deserção dá cadeia.
3. Salário real: É US$ 1.100 no treino e US$ 2.600 em serviço ativo, não R$ 30 mil.
Se você ou alguém da família precisar de ajuda urgente com brasileiro na Ucrânia, liga no +55 (61) 98260-0610 agora. É 24h.

