Pular para o conteúdo

A propina do Bittar: por que Gerlen Diniz, deputado e policial federal, não denunciou o suposto crime?

A declaração do prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz, de que o senador Márcio Bittar teria exigido propinas de até 30% sobre emendas destinadas ao município é grave o suficiente para não ser tratada como mais um capítulo da guerra política acreana. Se verdadeira, revela um esquema criminoso de enorme dimensão. Se falsa, configura uma acusação de extrema gravidade que também precisa produzir consequências. Em qualquer hipótese, o silêncio das instituições já não se justifica.

Há uma pergunta que a sociedade tem o direito de fazer: por que Gerlen Diniz não denunciou o suposto crime quando tomou conhecimento dele?

À época dos fatos narrados, Gerlen não era um político sem acesso às autoridades. Era deputado federal, circulava livremente pelos corredores do Congresso Nacional e tinha trânsito entre parlamentares e órgãos de fiscalização. Nada o impedia de provocar o Ministério Público, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República ou mesmo levar o assunto à Comissão de Ética do Senado. Se dispunha de informações sobre um suposto pedido de propina envolvendo recursos públicos, por que permaneceu em silêncio?

O questionamento torna-se ainda mais inevitável diante do contexto político. Naquele período, Gerlen Diniz e Márcio Bittar integravam o mesmo campo de alianças. Somente agora, quando ambos passaram a ocupar lados opostos da disputa política, a denúncia veio a público. A coincidência temporal desperta dúvidas que precisam ser esclarecidas.

A omissão, caso tenha ocorrido diante de indícios concretos de crime, também merece reflexão. Um agente público que toma conhecimento de fatos dessa natureza não pode simplesmente arquivá-los por conveniência política. O interesse público deve estar acima das alianças eleitorais.

Outro silêncio que incomoda é o do ex-prefeito Mazinho Serafim. Segundo o próprio Gerlen, as informações teriam chegado a ele durante a transição administrativa. Se o então gestor municipal tinha conhecimento ou vivenciou qualquer tentativa de cobrança ilícita envolvendo recursos destinados a Sena Madureira, também deve explicações à população. O que sabia? Quando soube? Comunicou alguma autoridade? Ou igualmente optou pelo silêncio?

Enquanto isso, as instituições responsáveis pelo controle da legalidade seguem sem dar respostas públicas proporcionais à gravidade das declarações. Ministério Público, Polícia Federal e demais órgãos fiscalizadores não podem assistir passivamente a um prefeito acusar um senador da República de suposta corrupção envolvendo dinheiro público sem que haja uma apuração rigorosa.

A sociedade acreana não pode aceitar que denúncias dessa magnitude sejam usadas apenas como munição eleitoral. Se houve crime, os responsáveis devem responder. Se não houve, quem formulou a acusação também deve assumir as consequências.

O que não é admissível é transformar uma denúncia de possível corrupção milionária em mero discurso político, enquanto prevalece um silêncio que alimenta a desconfiança e enfraquece a confiança da população nas instituições.

R

REDAÇÃO

Autor da publicação.