O Acre merece representantes que conheçam o Acre
A candidatura da empresária Bruna Fernandes Dias a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Acre causa mais estranheza do que entusiasmo. Não porque empresários estejam impedidos de disputar eleições — ao contrário, a iniciativa privada pode contribuir para a política. A questão é outra: qual é, afinal, a relação efetiva da candidata com o Acre?
Sua atuação empresarial está concentrada em Goiânia (GO) e Trindade (GO), sendo conhecida por poucos acreanos por ser proprietária da Ricco Transportes, empresa que assumiu a operação do transporte coletivo de Rio Branco em um contrato firmado durante a gestão do então prefeito Sebastião Bocalom. A contratação, amplamente debatida à época, foi objeto de críticas políticas e administrativas, especialmente em razão das alterações contratuais ocorridas durante sua execução e da insatisfação de parte expressiva dos usuários com a qualidade do serviço.
Para quem dependia diariamente dos ônibus, a experiência ficou marcada por veículos envelhecidos, atrasos, redução de linhas, superlotação em diversos horários e uma série de promessas de modernização que, na percepção de muitos passageiros, nunca se materializaram da forma anunciada.
É justamente esse histórico que torna legítima uma pergunta: por que os eleitores de Rio Branco e do Acre deveriam confiar um mandato parlamentar à empresária?
Mais do que isso: qual foi a contribuição de Bruna para o desenvolvimento do estado além da exploração de um serviço público concedido pelo município? Que participação teve nos debates sobre saúde, educação, segurança, produção rural, infraestrutura ou desenvolvimento regional? Que vínculos construiu com os municípios acreanos antes de decidir disputar votos?
Também chama atenção a escolha partidária. Bruna filiou-se ao PSD, legenda que integra um campo político adversário do ex-prefeito Sebastião Bocalom, justamente o gestor que assinou o contrato que permitiu à Ricco atuar no transporte coletivo da capital. A mudança desperta curiosidade e merece explicações ao eleitor. Trata-se de uma escolha ideológica ou de mera conveniência eleitoral?
Outro ponto que não pode passar despercebido é o desafio prático de exercer o mandato. Um deputado estadual precisa estar diariamente na Assembleia Legislativa, acompanhar comissões, fiscalizar o Executivo, visitar municípios e manter presença constante junto à população. Se a candidata mantém domicílio e concentra suas atividades empresariais em outro estado, como pretende cumprir essa rotina sem transformar o mandato em uma representação distante da realidade acreana?
O Acre possui centenas de lideranças comunitárias, empresários, professores, médicos, produtores rurais e profissionais que construíram suas trajetórias vivendo diariamente os problemas do estado. São pessoas que enfrentam as dificuldades das estradas, da saúde pública, da educação e da economia local.
Por isso, o debate não é sobre o direito de Bruna Fernandes Dias ser candidata. Esse direito é garantido pela Constituição. O debate é sobre representatividade.
A Assembleia Legislativa não pode ser vista como uma extensão de interesses empresariais nem como um destino político oportunista para quem pouco conviveu com a realidade acreana. Representar o povo exige mais do que cumprir os requisitos legais de elegibilidade. Exige conhecer a história, a cultura, as necessidades e os desafios do estado que se pretende representar.
Ao eleitor caberá decidir se a trajetória da candidata demonstra esse compromisso ou se sua candidatura representa apenas mais um projeto político importado, cuja conexão com o Acre começou e terminou na assinatura de um contrato de transporte coletivo que ainda hoje desperta críticas e lembranças amargas entre milhares de usuários.

