Há uma doença silenciosa que atravessa a política brasileira e que, no Acre, parece ter encontrado terreno especialmente fértil: a ingratidão.
Não se trata daquela ingratidão privada, entre pessoas. É algo maior e mais perigoso. É a transformação da conveniência em princípio, da conveniência eleitoral em caráter e do interesse de momento em suposta convicção ideológica.
Na política, o espelho muitas vezes é reverso. Ele não reflete necessariamente o caráter de quem olha. Reflete aquilo que interessa enxergar naquele instante.
E o Acre oferece um exemplo eloquente dessa contradição. Vejo desprezo aos próprios princípios por aqueles que juraram priorizar o bem comum. Obviamente, esse comportamento provoca conclusões instantâneas: eu, o meu sempre. Nosso, o vosso, jamais!
O Estado recebe recursos federais, obras, programas habitacionais, investimentos em infraestrutura e políticas públicas que alcançam diretamente municípios e famílias. No atual governo, há investimentos expressivos em rodovias acreanas: somente a reconstrução de 104 quilômetros da BR-364, entre Sena Madureira e Manoel Urbano, foi anunciada com previsão de R$ 714 milhões. O Novo PAC também destinou recursos para a ponte sobre o Rio Tarauacá, enquanto o governo federal registra centenas de milhões aplicados na manutenção e restauração das rodovias do estado.
Na habitação, o cenário também é concreto. O Minha Casa, Minha Vida foi retomado em 2023 e, no Acre, o próprio governo estadual informa que milhares de moradias previstas para 2026 contam com apoio federal.
Não estamos falando de promessa. Estamos falando de dinheiro público, contratos, máquinas, casas, estradas, infraestrutura e famílias beneficiadas.
Ainda assim, parte da política acreana parece preferir o conforto da idolatria ao desconforto da realidade.
É perfeitamente legítimo que alguém seja bolsonarista, lulista, antipetista, petista ou simplesmente independente. Democracia pressupõe liberdade de escolha. O problema começa quando a paixão política exige que o cidadão negue aquilo que seus próprios olhos enxergam.
E aí surge o fenômeno mais curioso: o eleitor que recebe uma obra, entra em uma casa construída com programa habitacional, utiliza uma estrada recuperada com dinheiro público, recebe um benefício social ou vê sua cidade contemplada por uma política federal — e, ainda assim, atribui tudo ao político que admira, independentemente de quem efetivamente financiou ou executou a ação.
É o negacionismo reverso.
Não se nega apenas aquilo que incomoda. Nega-se aquilo que não combina com a narrativa escolhida.
O Acre, com um eleitorado pequeno diante do universo nacional — o Brasil tem mais de 158 milhões de eleitores aptos em 2026 — não ocupa posição capaz de determinar sozinho os rumos de uma eleição presidencial.
Por isso mesmo, Brasília não precisa mendigar gratidão acreana.
Presidente nenhum deveria governar pensando em receber aplausos de cada Estado. Recursos federais não são presentes pessoais do presidente. São dinheiro público. O cidadão não deve favor a governante algum por receber aquilo que lhe pertence por direito.
Mas existe uma diferença entre não dever gratidão pessoal e ser intelectualmente honesto.
Reconhecer quem trouxe determinado investimento não significa votar naquele político. Agradecer uma obra não significa aderir a uma ideologia. Admitir que determinado governo fez algo positivo não transforma ninguém em militante.
Esse talvez seja o grande problema da política brasileira: confundimos reconhecimento com submissão.
Há quem seja incapaz de elogiar um adversário mesmo quando o adversário acerta. Há quem prefira negar a estrada construída diante de sua própria casa a admitir que o governo de que não gosta fez alguma coisa certa.
Isso não é convicção.
É fanatismo. É doença. É caso para psiquiatria ! Ou caráter limitado?
E o fanatismo é uma espécie de câncer porque começa pequeno, quase imperceptível, e termina destruindo a capacidade de enxergar a realidade.
No caso de Jair Bolsonaro, a idolatria chega ao ponto de sobreviver à própria biografia política recente. O ex-presidente foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e, em 2026, permanece sob prisão domiciliar humanitária.
Nada disso obriga ninguém a deixar de admirá-lo.
Mas deveria, ao menos, obrigar o eleitor a pensar.
O mesmo raciocínio vale para Lula. Quem não gosta do presidente tem todo o direito de criticá-lo. O que não parece razoável é transformar a crítica política em cegueira seletiva e negar investimentos públicos simplesmente porque foram realizados por um governo que o cidadão rejeita.
O dinheiro não muda de cor conforme a urna.
Uma estrada não fica mais ou menos asfaltada porque foi anunciada por Lula ou Bolsonaro.
Uma casa popular não deixa de proteger uma família porque o recurso veio de Brasília.
E uma ponte não pergunta em quem o beneficiário votou antes de cumprir sua função.
É aí que a política deveria devolver ao cidadão uma lição elementar: governo não é religião e político não é santo.
Não há necessidade de venerar quem governa. Muito menos de idolatrar quem nunca entregou aquilo que se promete reconhecer.
O que se espera é apenas honestidade intelectual.
Porque, quando a gratidão desaparece completamente e a conveniência passa a ocupar o lugar do caráter, a política deixa de ser instrumento de transformação e vira torcida organizada.
E um povo que troca a realidade pela idolatria acaba se tornando prisioneiro da própria narrativa.
O verdadeiro eleitor não é aquele que ama cegamente.
É aquele que consegue dizer: “não gosto de você, mas reconheço o que você fez.”
Essa frase, aparentemente simples, talvez seja uma das coisas mais difíceis de ouvir na política.
E justamente por isso seja também uma das mais necessárias.

