A eleição de 2026 produz um fenômeno curioso — e preocupante – jamais visto noutros pleitos: os erros de cadastro estão ficando milionários.
Depois de uma sequência de informações aparentemente equivocadas na plataforma de divulgação de candidaturas da Justiça Eleitoral, surgem novos casos que desafiam até a calculadora.
No Tocantins, a candidata a vice-governadora Lúcia Viana (PSOL) apareceu com patrimônio declarado na casa dos R$ 2 bilhões. A própria realidade dos bens registrados, porém, levanta a suspeita de que números tenham sido digitados com casas decimais ou zeros a mais.
E não é um caso isolado.
No Acre, o médico e ex-secretário de Saúde Pedro Pascoal (PSDB) é o mais recente caso semelhante: ele apareceu no sistema com patrimônio de nada menos que R$ 955.686.783.
Quase R$ 1 bilhão.
Pascoal concorre à Câmara Federal e informou que já solicitou urgentemente a correção da informação, reforçando a hipótese de erro no preenchimento ou lançamento dos dados. Outra candidata da mesma coligação foi surpreendida com erros que elevaram seus bens a uma fortuna inexistente.
A conta eleitoral, portanto, começa a ficar interessante: candidatos que nunca foram conhecidos como bilionários estão descobrindo fortunas quase instantâneas — e tudo isso graças a uma tecla, uma vírgula ou um zero fora do lugar.
Mas a história não termina aí.
No Acre, o vereador e presidente estadual do PT, André Kamai, candidato a deputado federal, também apareceu no sistema eleitoral com uma informação pessoal que não correspondia ao que havia declarado: de ser bissexual. O dado foi corrigido depois.
E o engenheiro Leonardo Melo, filho do ex-governador Flaviano Melo, também apareceu com patrimônio de R$ 2 bilhões, outro registro que provocou estranheza e deverá ser corrigido.
É muita coincidência para uma eleição só.
O problema é que declaração eleitoral não é brincadeira de planilha. Trata-se de informação pública utilizada por eleitores, jornalistas, adversários, órgãos de controle e pela própria Justiça Eleitoral.
Um patrimônio de R$ 2 bilhões pode virar manchete.
Um patrimônio de R$ 955 milhões pode mudar completamente a percepção pública sobre um candidato.
E uma informação pessoal errada pode provocar constrangimento, especulação e desgaste político.
Por isso, partidos, federações, coligações e candidatos precisam tratar o preenchimento dos sistemas eleitorais com a seriedade que o processo exige.
A Justiça Eleitoral deverá corrigir os equívocos identificados na plataforma pública. Mas fica uma pergunta incômoda: quem confere essas informações antes que elas sejam publicadas?
Porque, se é apenas erro de digitação, falta organização.
Se é descuido, falta responsabilidade.
E se alguém estiver deliberadamente inserindo informações erradas para criar desgaste político, o caso seria muito mais grave — embora, até agora, não exista prova pública de que isso esteja acontecendo.
Nos bastidores, circulam rumores de que, em situações isoladas, poderia haver tentativas internas de enfraquecer candidaturas consideradas competitivas por meio de informações equivocadas. É uma acusação séria e que, sem provas, deve permanecer exatamente onde está: no campo dos rumores.
Mas a sucessão de episódios merece atenção.
Porque eleição se ganha no voto.
Não no teclado.
E patrimônio de bilhões, orientação sexual cadastrada de forma equivocada ou qualquer outra informação falsa não pode ser transformada em arma eleitoral por incompetência, descuido — ou, eventualmente, má-fé.

