Uma abordagem aparentemente descontraída feita em um aeroporto acabou colocando novamente sob os holofotes um assunto que sempre provoca indignação entre os acreanos: os altos salários pagos no serviço público.
O influenciador Leonaldo Gualdezi, que reúne cerca de 227 mil seguidores nas redes sociais, encontrou a ex-deputada estadual e atual conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Acre, Naluh Gouveia, e decidiu perguntar aquilo que muita gente gostaria de saber.
Durante a conversa, a petista falou sobre uma remuneração mensal na casa dos R$ 50 mil, explicou o que faz com o dinheiro e respondeu a outras curiosidades relacionadas ao cargo que ocupa no TCE-AC.
A espontaneidade da abordagem tornou o momento ainda mais revelador. Fora dos gabinetes, das sessões solenes e dos discursos cuidadosamente preparados, uma autoridade pública foi confrontada com perguntas simples, mas incômodas para quem conhece a realidade econômica da maioria da população.
Para um trabalhador que recebe um salário mínimo, R$ 60 mil representam anos de esforço. Para milhares de famílias acreanas, é uma quantia distante até mesmo da imaginação. No topo do funcionalismo, porém, valores semelhantes podem aparecer na folha mensal, especialmente quando são somados subsídios, vantagens, indenizações ou pagamentos eventuais.
Naluh Gouveia construiu sua trajetória política defendendo trabalhadores, movimentos sociais e pautas históricas da esquerda. Exatamente por isso, a revelação sobre o valor chama ainda mais atenção. A distância entre o discurso de igualdade social e a realidade financeira proporcionada por um cargo vitalício no Tribunal de Contas inevitavelmente alimenta questionamentos, sem despreza seu mérito profissional, evidentemente.
Não há ilegalidade automática em receber aquilo que está previsto na legislação. A questão política e moral é outra: o Acre consegue justificar remunerações dessa dimensão diante de servidores que ganham pouco, aposentados que enfrentam dificuldades e famílias que dependem de programas sociais para sobreviver?
Também é importante esclarecer se os R$ 50 mil mencionados correspondem ao salário regular, ao rendimento bruto antes dos descontos ou a um mês específico, acrescido de benefícios e pagamentos extraordinários. Transparência exige que essa diferença seja apresentada claramente à sociedade.
A abordagem de Gualdezi teve o mérito de retirar o debate das planilhas oficiais e colocá-lo diante do público. Quando uma autoridade recebe dinheiro do contribuinte, perguntas sobre salário, benefícios e utilização dos recursos não constituem invasão de privacidade. Fazem parte da fiscalização democrática.
No fim, o vídeo não revela apenas quanto ganha uma conselheira. Expõe o abismo entre o Acre que sobrevive com pouco e a parcela privilegiada do serviço público que alcançou o andar mais alto da remuneração estatal.
E deixa uma pergunta que vale muito mais do que qualquer resposta descontraída em aeroporto: o cidadão acreano recebe, em fiscalização e proteção do dinheiro público, um retorno compatível com os R$ 50 mil mensais destinados a quem ocupa uma cadeira no Tribunal de Contas?

