Pular para o conteúdo

O cofre, seus preferidos e o abismo no fundo eleitoral do MDB no Acre

Rateio atribuído à direção nacional coloca Antônia Lúcia no topo, com R$ 2,8 milhões, e expõe diferenças milionárias entre candidatos do próprio partido; critérios adotados pelo MDB entram no centro do debate

Um documento já fechado pela direção nacional do MDB, ao qual a reportagem de O Seringal teve acesso com exclusividade, revela uma distribuição profundamente desigual dos recursos eleitorais destinados às candidaturas acreanas da legenda e levanta uma pergunta inevitável: qual foi, afinal, o critério utilizado pelo comando nacional do partido para definir quem teria milhões e quem precisaria disputar a eleição com uma fração desse dinheiro? Os números abaixo ainda serão informados ao site Divulgacand, o portal da Justiça Eleitoral com os dados de cada candidato. 

A informação ganha ainda mais peso porque o Tribunal Superior Eleitoral estabelece que os critérios para distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) são definidos pela direção executiva nacional de cada partido. Para 2026, o MDB apresentou formalmente seus critérios ao TSE, no processo nº 0601241-43.2026.6.00.0000, e teve os recursos do FEFC liberados em 21 de agosto.

O próprio TSE esclarece que a definição é uma decisão interna das agremiações e que a Justiça Eleitoral, ressalvadas as regras relativas às cotas de gênero e raça, não faz análise de mérito sobre os critérios escolhidos pelos partidos.

É justamente aí que começa o questionamento político.

Documento obtido por O Seringal aponta o rateio

Segundo o documento obtido pela reportagem, a maior fatia entre os nomes relacionados caberá à deputada federal Antônia Lúcia: R$ 2,8 milhões.

Logo depois aparece o deputado estadual Pedro Longo, candidato à Câmara Federal, contemplado com R$ 2 milhões.

Em outro patamar aparecem quatro candidatos, cada um com R$ 790 mil: Ney Amorim, Fábio Araújo, Minoru Kinpara e Leonardo Melo.

Na sequência aparece Antônia Sales, com R$ 530 mil.

Mas o número que mais chama atenção politicamente é o reservado a Vagner Sales (R$ 790 mil), sendo ele a principal liderança do partido no estado.

Claire Cameli aparece com R$ 150 mil.

Ranking do rateio obtido pela reportagem

1º – Antônia Lúcia — R$ 2.800.000

2º – Pedro Longo — R$ 2.000.000

3º – Ney Amorim — R$ 790.000

3º – Fábio Araújo — R$ 790.000

3º – Minoru Kinpara — R$ 790.000

3º – Leonardo Melo — R$ 790.000

7º – Antônia Sales — R$ 530.000

8º – Vagner Sales — R$ 290.000

9º – Claire Cameli — R$ 150.000

Antônia Lúcia e Pedro Longo, sozinhos, concentram R$ 4,8 milhões, ou aproximadamente 53,8% de todo esse montante.

O contraste entre Pedro Longo e Vagner Sales é especialmente expressivo.

Longo teria R$ 1,71 milhão a mais para fazer campanha. Para cada R$ 1 destinado a Vagner Sales, aproximadamente R$ 6,90 seriam destinados a Pedro Longo.

E surge a questão que o MDB nacional precisará explicar politicamente: o que justificaria uma diferença dessa dimensão entre dois candidatos que buscam representação parlamentar, sobretudo quando o candidato colocado no patamar inferior é justamente quem preside o partido no Acre?

Critério técnico, eleitoral ou escolha política?

O sistema DivulgaCandContas é justamente a plataforma oficial pela qual a Justiça Eleitoral disponibiliza dados das candidaturas e das respectivas contas de campanha. À medida que receitas e despesas forem oficialmente informadas, será possível confrontar os repasses efetivamente realizados com o rateio antecipado obtido pela reportagem.

A própria base de candidaturas da eleição confirma, entre outros nomes, Pedro Longo, Vagner Sales, Minoru Kinpara, Leonardo Melo e Antônia Lúcia entre os candidatos registrados pelo MDB no Acre.

O que o documento revelado por O Seringal coloca agora sobre a mesa é uma discussão essencialmente política.

Por que alguns candidatos receberam praticamente três vezes mais que o dirigente responsável por comandar o partido no estado?

E, sobretudo, quais critérios objetivos justificam uma distribuição tão desigual dentro da própria legenda?

Enquanto essas respostas não aparecem, os números falam por si — e mostram que, dentro do MDB acreano, a largada financeira da campanha está muito longe de acontecer em condições iguais.

R

REDAÇÃO

Autor da publicação.