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Canadá busca “aliança única” com UE em meio às tensões com os EUA

Canadá busca “aliança única” com UE em meio às tensões com os EUA

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O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que o Canadá está buscando uma “aliança única” com a UE (União Europeia), mais um sinal dos esforços de Ottawa para se distanciar de Washington em meio ao agravamento da guerra comercial.

A ideia de o Canadá se juntar ao bloco de 27 membros — ou pelo menos buscar laços mais estreitos com ele — ganhou força no país nos últimos dois anos, à medida que o Canadá tenta reduzir sua dependência econômica dos EUA.

Uma reportagem do jornal americano The Wall Street Journal publicada no sábado (12) detalhou como, na esteira das tarifas impostas por Trump, Carney pressionou pelo fortalecimento dos laços com o bloco comercial, instruindo um enviado especial à Europa a explorar possibilidades “que não chegassem a uma adesão plena à UE ou ao seu mercado comum”, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Falando a repórteres no domingo (13), Carney disse que o Canadá não está “buscando se tornar membro da União Europeia”, mas sim iniciando discussões para formar uma “aliança única” com o bloco, com o qual já mantém um acordo comercial abrangente.

“Compartilhamos os mesmos valores, temos as mesmas prioridades e possuímos pontos fortes muito complementares”, disse Carney, que deve fazer um discurso no Parlamento Europeu nesta semana.

Veja o que se sabe sobre os laços crescentes entre o Canadá e a UE:

O Canadá poderia aderir à UE?

A resposta curta é não, pelo menos não como membro pleno.

O Canadá, uma antiga colônia britânica, compartilha profundos laços culturais e históricos com a Europa e se assemelha aos modelos europeus no que diz respeito à sua democracia parlamentar, sistema de saúde universal e bem-estar social, entre outras coisas.

O Canadá chega a compartilhar uma pequena fronteira terrestre com a Europa, por meio da Dinamarca, na Ilha Hans — uma pequena massa de terra ao noroeste da Groenlândia.

No entanto, embora o Canadá provavelmente atendesse aos padrões políticos, econômicos e jurídicos para ingressar no bloco, existe uma barreira óbvia: ele não está geograficamente na Europa.

Para entrar na UE, um país deve seguir um processo rigoroso de várias etapas chamado de adesão, e sua candidatura precisa ser aprovada por unanimidade por todos os 27 Estados-membros.

Há uma fila de países aguardando para entrar, com nove nações atualmente reconhecidas como candidatas à adesão à UE. Outros países europeus, como a Noruega e a Suíça, não são membros formais da UE, mas mantêm parcerias com o bloco em questões comerciais e de livre circulação de pessoas.

Como seria a “aliança única”?

Segundo o Wall Street Journal, Carney sugeriu aos líderes europeus que o Canadá assumisse um papel personalizado e de alta integração como um chamado “membro associado” — uma ideia à qual pelo menos alguns líderes do bloco parecem receptivos, de acordo com autoridades de ambos os lados.

Entre os pontos discutidos por autoridades europeias e canadenses, segundo a reportagem, estão: a redução de barreiras comerciais; a instalação de cabos submarinos ligando a Europa ao Canadá; o redirecionamento de gasodutos para permitir que a Europa tenha acesso ao gás canadense; a construção de nova infraestrutura de tecnologia e inteligência artificial; e até mesmo a concessão aos canadenses do direito de viver e trabalhar na Europa sem necessidade de visto.

Nesses moldes, o Canadá teria uma relação com a UE sem precedentes para um país fora da Europa. O embaixador da UE no Canadá declarou à agência Canadian Press, na semana passada, que a parceria seria algo inédito, sem entrar em detalhes específicos.

Ainda não foram divulgados publicamente detalhes sobre como seria essa possível aliança. No entanto, há sinais de uma aproximação crescente entre o Canadá e a UE.

Antes do discurso de Carney na quinta-feira em Estrasburgo, na França, o Parlamento Europeu anunciou a abertura de um novo escritório de representação em Ottawa, reforçando seu compromisso em “aprofundar o diálogo político e a cooperação com o Canadá”, conforme comunicado à imprensa.

Os aliados já mantêm uma relação comercial significativa, que vem crescendo de forma constante desde que grande parte do Acordo Econômico e Comercial Abrangente (CETA) entre a UE e o Canadá entrou em vigor, em 2017.

O comércio bilateral de bens e serviços atingiu 130,8 bilhões de euros (R$ 776,2 bilhões) no ano passado, segundo a Comissão Europeia, um aumento de mais de 80% na última década.

As principais exportações da UE para o Canadá incluem automóveis, máquinas e produtos farmacêuticos. Já as exportações canadenses para a Europa abrangem petróleo bruto, fertilizantes, minerais críticos e metais básicos.

O que disseram os líderes europeus?

Carney, ex-presidente do Banco da Inglaterra, mantém fortes laços na Europa desde a época em que atuava no setor bancário e tem cultivado relacionamentos com líderes europeus que compartilham de suas ideias desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro, em março de 2025.

Em Paris, no ano passado — durante sua primeira viagem oficial ao exterior como líder, que notavelmente não teve como destino os EUA, rompendo com a tradição recente —, Carney descreveu o Canadá como “o mais europeu dos países não europeus”.

Desde então, vários países da União Europeia levantaram a ideia de o Canadá integrar o bloco, incluindo o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, que certa vez classificou a possibilidade como “um casamento perfeito”.

Relata-se que Stubb e Carney trocam mensagens de texto diariamente e costumam encontrar tempo para uma corrida ou uma partida de hóquei no gelo entre as reuniões de suas viagens oficiais.

Em uma entrevista concedida em abril à CBC News — parceira de coleta de notícias da CNN —, Stubb afirmou que consegue “imaginar uma UE muito maior; se o Canadá fará parte dela ou não, é uma decisão que cabe ao próprio Canadá”.

Ele acrescentou que, devido à afinidade de valores entre os dois países, eles poderiam “forjar uma parceria estratégica realmente estreita”.

“Não seria maravilhoso se o Canadá fosse o 28º Estado da União Europeia, em vez do 51º Estado dos Estados Unidos?”, questionou Stubb, segundo o The Wall Street Journal.

Carney também tem investido no relacionamento de longa data do Canadá com a França, viajando ao país diversas vezes durante seu mandato e sendo calorosamente recebido pelo presidente francês, Emmanuel Macron.

Os dois líderes devem se encontrar no domingo em Saint-Pierre-et-Miquelon — uma pequena ilha francesa situada a apenas 25 quilômetros da costa de Terra Nova.

Em março, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, levantou a hipótese de Ottawa aderir à UE, declarando em uma conferência que “talvez o Canadá, em algum momento”, venha a integrar o bloco, segundo a agência Canadian Press.

Isso não significa, porém, que todos os líderes da UE apoiariam uma eventual candidatura do Canadá. Dez Estados-membros ainda não ratificaram o acordo comercial assinado entre o Canadá e a UE em 2016, o qual eliminou praticamente todas as tarifas preexistentes.

Qual tem sido a reação no Canadá?

Os canadenses são, em sua maioria, favoráveis ​​ao fortalecimento das relações com a UE; no entanto, o apoio à adesão plena permanece dividido, segundo dados recentes. Uma pesquisa realizada no início deste mês pela empresa canadense de sondagens Abacus Data revelou que cerca de 80% dos canadenses acreditam que o Canadá deveria aprofundar a cooperação com a UE em política externa, defesa e prioridades econômicas — um aumento de 6 pontos percentuais em relação à última vez que a pergunta foi feita, em fevereiro.

Além disso, 56% dos entrevistados afirmaram que o Canadá tem mais em comum com os países da UE do que com os EUA, segundo a pesquisa. Quase metade (49%) disse que apoiaria a adesão do Canadá à UE, sendo o apoio maior entre eleitores de centro e de esquerda.

No entanto, alguns no Canadá veem com ceticismo uma aproximação maior com a UE, temendo que isso possa isolar ainda mais o país de seu vizinho do sul e maior parceiro comercial, enquanto outros se preocupam com uma possível perda de soberania.

Pierre Poilievre, líder do Partido Conservador (oposição), classificou a iniciativa de Carney de aprofundar os laços com a UE como algo “desconectado da realidade”, em uma publicação na rede social X após a divulgação do relatório.

“NUNCA seremos o 51º estado dos EUA. E NUNCA seremos o 28º estado da UE”, afirmou.

(Com informações de Hanna Ziady, da CNN)

Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original 


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por lucasoliveira.

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lucasoliveira

Autor da publicação.