Pular para o conteúdo

O poder dos amuletos: por que a mente humana cria rituais de sorte em momentos de incerteza?

O poder dos amuletos: por que a mente humana cria rituais de sorte em momentos de incerteza?

Compartilhar matéria

Há quem volte do elevador para buscar a pulseira esquecida, quem só faça entrevista de emprego com a mesma caneta e quem confira no bolso, antes de uma prova, se a moeda continua no lugar.

Ninguém precisa acreditar de fato que o objeto decide o resultado para sentir que sair de casa sem o objeto de sorte é um mau começo de dia. O costume atravessa culturas e épocas, aparece no esporte, no palco e no escritório, e virou tema de experimentos em universidades da Europa e dos Estados Unidos. O que esses trabalhos mostram, porém, é menos simples do que a crença popular sugere.

Objeto de sorte aparece quando o resultado é incerto

A incerteza é o gatilho mais citado pelos pesquisadores. Richard Wiseman, professor de psicologia da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, e autor de *O Fator Sorte*, sustenta que as pessoas ficam supersticiosas quando precisam enfrentar situações de desempenho imprevisível, como as de atletas e atores. Segundo o pesquisador, o amuleto da sorte reduz a ansiedade, e isso ajudaria a render melhor.

Os exemplos do esporte alimentam essa ideia. O astro do basquete Michael Jordan usava por baixo do uniforme da NBA o calção da equipe da universidade, e o golfista Tiger Woods ficou conhecido por vestir camisa vermelha nos domingos de torneio, em geral o último e mais importante dia.

Fora das quadras, o mecanismo se repete em provas, entrevistas e consultas. Segundo o psicólogo Bruno dos Santos, professor do curso de Psicologia da UNINASSAU, em Petrolina (PE), as pessoas tendem a se sentir “mais tranquilas ao seguir tradições e rituais conhecidos”, porque acreditam ter feito algo para garantir um bom desfecho, conforme material divulgado pela instituição.

O cérebro liga o objeto ao resultado

Boa parte da explicação está na forma como a mente organiza o mundo. O antropólogo Dimitris Xygalatas, professor associado de Antropologia e Ciências Psicológicas da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, descreveu em artigo de sua autoria que as pessoas procuram padrões o tempo todo e tendem a tratar coincidência como causa.

Quem estreia uma camisa no estádio e vê o time vencer pode repetir a escolha no jogo seguinte. Se a vitória vem de novo, a peça vira camisa da sorte, ainda que muitas outras coisas tenham mudado entre uma partida e outra. É o chamado pensamento mágico em ação.

Há também um viés de memória. Segundo o pesquisador, como as pessoas querem que o amuleto funcione, lembram dele quando o resultado é bom e buscam outra explicação quando é ruim, como culpar o árbitro. Isso ajuda a espalhar a crença.

O ganho psicológico, para o pesquisador, está em uma “sensação de controle que, mesmo que ilusória, ainda pode ser reconfortante”. E o apego pode ser forte: em 2014, uma estátua de Julieta, personagem de Shakespeare, precisou ser substituída pelo desgaste causado por visitantes que a tocavam em busca de amor.

O experimento alemão que virou referência

O trabalho mais citado sobre o tema saiu em 2010 na revista Psychological Science, assinado pelos pesquisadores Lysann Damisch, Barbara Stoberock e Thomas Mussweiler, da Universidade de Colônia, na Alemanha. Lysann, psicóloga social, contou na divulgação do estudo que a ideia surgiu ao notar que atletas, inclusive famosos, mantêm superstições, e ao se perguntar o por quê disso.

Em um dos experimentos, voluntários levaram um amuleto para o laboratório. Os pesquisadores o recolheram sob o pretexto de fotografá-lo e devolveram o objeto a apenas metade do grupo antes do teste. Quem estava com o amuleto se saiu melhor em um jogo de memória no computador, mostrou-se mais confiante e estabeleceu metas mais altas.

Em outra tarefa, desejar boa sorte ao participante, com a versão alemã de cruzar os dedos, melhorou o resultado em um teste de destreza manual. Em um terceiro teste, de golfe, quem ouviu que a bola era da sorte acertou mais tacadas. Os autores atribuíram o efeito ao aumento da autoconfiança.

A própria pesquisadora, entretanto, fez uma ressalva. “Não significa que você vence, porque ganhar e perder é outra coisa”, disse, ao lembrar que a superstição não garante o placar.

Réplicas não confirmaram o ganho de desempenho

Anos depois, outro grupo tentou reproduzir o experimento do golfe, o mais simples do conjunto, e não encontrou o mesmo resultado. Robert Calin-Jageman, do Departamento de Psicologia da Dominican University, nos Estados Unidos, e a pesquisadora Tracy Caldwell fizeram duas réplicas com amostras maiores, com a colaboração da própria Lysann para aproximar o procedimento do original, e publicaram os dados em 2014 na revista Social Psychology. Os participantes informados de que tinham uma bola da sorte tiveram desempenho “quase idêntico” ao do grupo de controle, segundo os autores.

A equipe descartou explicações como falta de poder estatístico, diferença na dificuldade da tarefa ou menor crença na sorte entre os voluntários. Uma metanálise apontou, no entanto, variação relevante do efeito entre os estudos, o que mantém a questão em aberto. Enquanto isso, o experimento original continuou circulando como prova de que amuletos melhoram o rendimento.

Alívio psicológico, não poder mágico

O psicólogo comportamental Stuart Vyse, autor de *Acrediando na Magia* (Oxford University Press) e que lecionou no Connecticut College, nos Estados Unidos, incluiu o experimento alemão no livro.

Em artigo publicado em 2024 na revista Skeptical Inquirer, ele contou que julgava plausível que uma superstição gerasse um “benefício psicológico, e não mágico” no esporte, mas que as réplicas, feitas depois de a obra ir para a gráfica, não encontraram efeito da crença na sorte.

Também no artigo, Stuart descreve a superstição como resultado de processos bem conhecidos, como a sensibilidade a coincidências, o hábito de criar rituais para lidar com o nervosismo, o esforço para enfrentar a incerteza e a necessidade de controle.

Quando o apego ao objeto vira problema

O outro lado do objeto de sorte é a dependência. Wiseman lembra que a desvantagem de ter um amuleto é a possibilidade de “sentir ansiedade se o objeto for perdido”. Quem só se sente preparado com o item ganha mais um motivo de tensão no dia da prova ou da apresentação, e não menos.

Stuart defende, por sua vez, que a sociedade ofereça formas alternativas de lidar com as incertezas da vida, como o ensino de análise de decisões e de ciência, além do exercício de avaliar criticamente a origem das próprias crenças. Para quem gosta de carregar o seu, as evidências disponíveis indicam que o objeto pode acalmar, mas não permitem afirmar que melhore o resultado. Enquanto funciona como conforto, e não como condição para agir, tende a ser um hábito inofensivo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por lucastmachado.

C

lucastmachado

Autor da publicação.